Tradição tem sido um termo em voga em boa parte dos estudos e das discussões da área de humanas. Palavra que pode fazer tremer a muita gente, se pensamos no controle que uma tradição, ao se revestir de verdade, pode ter sobre uma boa parte da chamada massa. Prefiro, no entanto, ver a coisa pelo outro lado, ou seja, que a massa, até o surgimento da dita Sociedade Industrial – por que insistem no termo revolução para este fenômeno? – era algo fora do discurso. Isso não anula, e nunca se anulou, nunca se anulará, a impossibilidade de uma força do „esclarecimento“ (ou Iluminismo, se preferem), através da qual o indíviduo entende que sua consciência pode pensar para além da Panconsciência, para usar uma palavra do escritor argentino Marcelo Cohen.

Então, ficamos assim: o indíviduo não repete a tradição por simples movimento natural, mas sim a pensa, a compreende, a reflete, a explora, quiça, a modifica, é dizer, não repete. Sem que isso seja, como vivemos desde do final dos 800, e agora alcançando, senão o pico disso – quem poderá falar em limites de altura? – o momento assente duma fingida liberdade. Ouve-se o que se ouve, lê-se o que se lê, e, não bastasse, justifica-se com o „cada um com seu cada qual“. Frase do medo, que prevalece nas bocas por aí, por aqui, por lá, por onde seja. Um modo mais refinado: „é subjetivo“.

Maradona, cidadão bastante simbólico para uma Panconsciência argentina – viva o Cohen –, parece que quis fazer valer seu „cada qual“, negando ao seu país – conceito de Nacional, isso – uma seleção, penso, mais decente. Cambiasso, fora; Zanetti, nem pensar. Não, não repito aqui a máxima „um país de 180 milhões de técnicos“ (Nós, já somos 200, eles, algo como 40 milhões).

Contra-argumento: é uma opinião, a minha. E cada um tem a sua. A máxima, ou o máximo, da Democracia. Se é isso mesmo, então devemos montar a seleção, ou as seleções, por Plebiscito. Se as paixões falarem mais alto, a próxima Seleção Brasileira será o Flamengo, talvez com algum corinthiano no elenco. Não, não. Bobeira, a minha.

Pensar o futebol tem sido uma tarefa marginal. Talvez, por isso, Zanetti não tenha mais lugar. Pensa muito.

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