Até aqui, tudo certo: quatro jogos com oito gols formavam parte do meu record pessoal de gols vistos em um único jogo. Fluminense 7×1 Botafogo, Fluminense 4×4 Vasco, Vasco 4×4 Botafogo e Botafogo 6×2 Mesquita. E uma pequena ansiedade para quebrar estes números. Oportunidades, não são muitas. Há de se esperar o confronto entre um grande e um pequeno ou que aconteça dessas loucuras, desses absurdos, como no Clássico Vovô de 1994, em que a ironia quis um derrotado com 7 no placar e na camisa, por conta do então patrocinador ser certo refrigerante. Ou aguardar um duelo entre mim e meu amigo poeta, vascaíno, como sabem, num jogo válido por nada, ainda por cima no Carnaval.

Recentemente, perdi a chance de vislumbrar os nove gols, quando não pude estar presente no VfB Stuttgart 7×0 Borussia Mönchengladbach. Ainda, cheguei perto de sonhar em dois jogos deste final de ano: o mesmo time local com vitórias de 6×0 contra o Werder Bremen e 5×1 contra o Odense BK, da Dinamarca. (Após citar estes três resultados da atual temporada, enganaria o leitor, construindo um VfB-máquina. Cabe: o time é o penúltimo colocado na Bundesliga)

Isso não passa de cosmética, sabemos. A final do Carioca de 1993, um 0x0 contra o Vasco, tem muito mais lugar que todos os encontros supracitados. E nem caberia, aqui, fazer uma lista de importantes jogos na minha carreira de espectador que terminaram com um gol ou mesmo nenhum.

Caminho para o último confronto da temporada, logo um desafio VfB Stuttgart x FC Bayern München, pelas oitavas de final da Copa da Alemanha. Este jogo, considerado um clássico do Sul, é uma repetição dupla: reedição da partida válida pela mesmo fase da última Copa da Alemanha, quando Lehman defendeu um pênalti de Ribery, apenas para evitar o 1×6; reedição do confronto de três dias antes, válido pela Bundesliga, com vitória bávara por 3×5.

Já aqui fica claro que enfrentar o gigante alemão, mesmo em casa, não é nada agradável. E talvez fosse chegada a hora. Justo no terrível momento em que a equipe trava uma luta para não ser rebaixada. Como gostam de dizer aqui, uma espécie de vitória de libertação.

Após dias de frio imenso e neve que paralisou aeroportos e estações ferroviárias, uma agradável noite de 7 graus positivos. Primeiro bom sinal. Quando do anúncio da escalação dos times, o rapaz atrás de mim se queixa com um senhor, talvez seu pai, ao ouvir o nome do russo Pogrebnyak entre os titulares. O mesmo nome que está na minha camisa, e que ele, o rapaz, não o russo, vê muito bem. Levanto-me, e quero esfregar o número 29 na cara dele. Já verá! Já verá!

Sente-se um Stuttgart com muito receio, pouca confiança no toque de bola. O Bayern se ajeita melhor, avança com paciência, conhece sua superioridade. Pá. Ottl acerta de longe, 0x1. Pá. Cruzamento, Gómez escora, bola entre as pernas de Ulreich, 0x2. O que era pequena tensão, passa a ser desespero. Não é o momento para ser impiedosamento goleado. Não que haja momentos para isso, mas há aqueles em que um resultado desta ordem é somente um mal dado para a história, não uma catástrofe.

O Stuttgart não reage, e apenas um lance isolado, de sorte, deixa Harnik na frente do goleiro do Bayern. Escanteio. Se o gol não sai a favor, pelo menos tampouco sai contra, o que pela situação do jogo é alívio. Que deixem o tempo correr. Ser eliminado não parece ter reversão. Que deixem a dignidade.

Sem sequer uma jogada construída, o time da casa diminui, Pogrebnyak. Isso não dá esperança de vitória, mas garante um placar honroso. O Bayern não sente o gol, e se a coisa não sai do 1×2, é devido ao sobrenatural de Almeida, que, de férias na Alemanha, veio acompanhar-me. Já vamos pelos acréscimos. A bola sobra para Pogrebnyak, na área. “Bate daí”, penso. Ele corta, tromba, gira, ajeita-se. Pé esquerdo: golaço. Viemos abaixo. Com os polegares apontados para o nome, comemoro diante do meu opositor ideológico.

Na volta do intervalo, Boulahrouz faz seu nome. Há muito fora da formação titular, ele justifica sua então ausência. Um carrinho mal dado, que coloca Klose para o 2×3, e uma expulsão tola, após outro carrinho, desta vez apenas para levantar Schweinsteiger.

Pênalti. Cacau é derrubado e o empate volta a estar nas mãos. O time passou a jogar bem, a pressionar, e o medo da humilhação deixou lugar à luta pela vaga. Christian Gentner põe as esperanças na mão do goleiro. Não é dia.

Pogrebnyak chega bem de cabeça. Defesa do goleiro. Pouco depois, Delpierre chega bem de cabeça. Empate. Com um a menos, com pênalti desperdiçado, empate. Agora sim. Confiança, Bayern trêmulo, torcida forte.

Quando Thomas Müller marcou o 3×4, aquilo foi apenas a abertura para os gols de Klose e Ribery, para decretar o 3×6.

Estava estabelecido meu record de gols em um único jogo. E o que isso importava?

Anúncios