Bruno Mezenga começou a se aquecer mais ou menos quinze minutos antes do fim da primeira etapa. De luvas e calça comprida. Nem que fizesse tanto frio, algo entorno de oito graus, mas são dessas coisas de adaptação. Ao meu lado, minha mãe também se aquecia. Sem luvas, mas com calça comprida. Não dava saltinhos nem piques, mas, às palmas, acompanhava o ritmo da torcida do Legia Warszawa.

A ironia talvez seja isso: sair do Flamengo, rubro-negro, e jogar no tricolor de Varsóvia. Verde, vermelho e branco, em tons mais claros. Roger Guerreiro, à época apenas Roger, fizera o mesmo. E acabou até polonês, jogando a Euro 2008 e saindo logo depois para o futebol grego. Sem deixar saudades.

Terminou o primeiro tempo, 0x0. O Legia com mais posse de bola, chances perdidas. O Lechia Gdańsk ameaçou uma vez, destes contra-golpes esporádicos feitos por quem veio se defender. Nenhum desespero: o camisa 80 Bruno Mezenga resolveria a falta de gols.

Associação. Bruno Mezenga me remete a outro Bruno, o Meneghel. Por uma história, nada mais. Aquela de um pênalti mal batido, convertido, e de um gol driblando o goleiro na base do tropeço – talvez um dos dribles mais originais do futebol. Era Resende x Flamengo, Campeonato Carioca, e Meneghel, nas cores do humilde alvinegro, não falhou sequer na entrevista: “Demonstrei hoje o grande jogador que sou”.

Há quem goste de encontrar coincidências na história. Com situações, números, o que seja. Não sei se gosto. Mas dou subsídios aos que gostam: ano passado, em Varsóvia, fui ao humilde rival do Legia, o Polonia Warszawa, rubro-negro. Jogava certo brasileiro, Marcelo Sarvas, ex-Corinthians, segundo o site oficial do clube. O adversário fora justo o Lechia Gdańsk, que saira vencedor, 0x1.

Mas que não nos esqueçamos da máxima, usada antes dos confrontos que se repetem: a história agora é outra. Vai saber. Interessa que o muito bom e bonito estádio, renovado recentemente, recebia excelente público, que empurrava incansavelmente a equipe local. Não paravam de cantar, e se empolgavam a cada lance do português Manú, adepto das firulas e dos cabelos grandes, muito bem apelidado de Ronaldinho Gaúcho por minha mãe.

Não pararam de cantar nem após o primeiro gol do Lechia. Sequer após o segundo. Após o terceiro, Manú, Bruno Mezenga, ingressado na volta do intervalo, e a torcida, acompanhavam o desânimo de toda a equipe. O Gdańsk sabia a vitória, sem pressas.

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