Apito do juíz. Os jogadores dirigem-se ao vestiário, sabem que ouvirão broncas ou advertências, pensam no andamento do jogo. Alguns, aliviam-se, porque a pressão do adversário estava fortíssima. Outros lamentam, queriam uns minutos a mais. Os repórteres enfiam seus microfones guela adentro dos atletas, obrigam-lhes quaisquer palavras. Há, em casos mais sofisticados, um corredor, no qual se encontra um painel com o nome dos patrocinadores. Diante deste painel, os microfones dos repórteres são mais contidos.

Os torcedores conversam, levantam-se, vêem os melhores lances no telão ou numa tv colocada em algum bar do estádio. Outros buscam alguma coisa para comer, muitas vezes nem tanto pela fome, mas por ser um dos poucos modos de se fazer passar o tempo, aqueles longos e insossos quinze minutos.

Na experiência do paladar, todo cronista reconhece os ambientes. Bem verdade que as diferenças podem residir mais numa questão nacional que propiamente de estádio para a estádio. Em certos casos, há correspondências, como os refrigerantes, encontrados em qualquer lado. Mas, mesmo nas bebidas, há forças que impedem o cronista de seguir um ritual universalizante. Nunca houve quem dissesse, penso eu, mas um estádio de futebol, mesmo que repleto de jogadores de todos os continentes, é uma das maiores negações do globalizável, quiça do globalizante mesmo.

Nenhum carioca ousa pedir um mate em Buenos Aires, a não ser que espere tomar algo próximo ao chimarrão. Sairá decepcionado, porque isso não se vende em cancha nenhuma. Beber vinho quente, sem álcool, o Glühwein, só mesmo na Alemanha, talvez em outros estádios dos países do norte ou leste da Europa, mas não no Maracanã. O café, no entanto, não alivia o frio de ninguém na Mercedes-Benz Arena, mesmo nos dias de quinze graus negativos e bola laranja.

Se passamos das bebidas para as comidas, a coisa fica mais grave. O biscoito de polvilho é nosso. O cachorro-quente, porém, é de todos, e até mesmo na qualidade. Ou alguém já experimentou um hot dog de estádio que prestasse? Se estiver em Buenos Aires, melhor comer um choripan. Em Lisboa, um sandes de leitão, que nós, sem problemas, chamaríamos de sanduíche de porco, sem, no enttanto, poder saboriá-lo no Maracanã. Na Alemanha, também o porco domina a preferência, concorrendo, em alguns casos, com a pizza ou a batata frita – não de saco. De todos os modos, nada disso ganha dos sanduíches com salsicha, alemães evidente, que podem ser de diversos tipos e que variam de região para região.

Por falar em batata frita de saco, a de Barcelona vira souvenir. Vale até comprar o saco e jogar a batata fora, cujo gosto é horrível. Mas o escudo da equipe catalã vem estampado no saco. Também escudos vêm estampados, só que em copos, em Frankfurt.

Não se podem deixar os doces de lado. Há sorvetes, helados e gelados, claro. E queijadinhas, em Lisboa. Na Alemanha, as guloseimas não me parecem fazer tanto sucesso, embora lá esteja o quiosque onde se pode comprá-las. Não me lembro de alfajores em estádios argentinos, o que deveria ser implementado por lei.

Pagar exige dinheiro, e não é somente a moeda que diferenciará. Na Alemanha, o dinheiro só serve para comprar um cartão, no formato dos de crédito, e com ele dirigir-se às lanchonetes. Em Frankfurt, basta devolvê-lo no final da partida e recebe-se de volta o valor pago pelo cartão. Mas vale mesmo perder os cinco euros e guardá-lo: vem com alguma imagem referente ao clube. Em Stuttgart, se o indíviduo é visitante assíduo, não precisa nem de dinheiro: recarrega o cartão com transferência bancária, pela internet, se quiser. Na Argentina nunca há troco, equanto em Lisboa nunca reclamam se tem de dar troco, pelo menos nos estádios.

Barriga cheia, hora de assistir ao segundo tempo. Afinal, é para isso que se vai a estádios.

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