Assim que fiquei sabendo que o Benfica disporia somente entradas para sócios, a minha esperança de ir ao derby lisboeta reduziu. Não desapareceu, porque um cronista não foge à luta. Esperei alguns dias, talvez abrissem para não-sócios um pouco depois, mas nada. Fui ao sítio do Sporting e lá estava um anúncio que falava em 22 euros, em tipo único, e não mencionava nada em relação a sócios. De imediato, pensei que a questão de sócio fosse tão óbvia, que mencioná-la seria provocar a inteligência do adepto. Um cronista vai até as últimas consequências.

Meia-hora antes de abrir a bilheteira, em algum dia de semana, cheguei ao Alvalade. Para passar o tempo, visitei a loja do Sporting, onde os artigos chamavam e os preços repulsavam, numa disputa muito própria da atualidade. Encontrei um postal, e esse eu poderia comprar. Fi-lo. Ali mesmo, diante da bilheteira fechada, escrevi no verso e dias depois ele atravessou o oceano e chegou a Buenos Aires.

Dessas coisas que a humanidade pouco entende, o derby foi marcado terça-feira à noite, o que me obrigou a perder aula. Não justifiquei minha ausência, por achar que o motivo era por demais sério e ficaria subentendido que num dia de derby os alunos não necessariamente devam comparecer às aulas. Não vesti nada do Sporting, sabia que seríamos três mil contra mais de sessenta mil benfiquistas.

Das minhas experiências como torcedor visitante, recordo-me, agora, somente de duas: junto aos torcedores do Banfield, num jogo contra o Vélez, em Liniers, e como torcedor do Fluminense, em La Plata, contra o Gimnasia y Esgrima da cidade. Se bem éramos vinte e três, e nem todos tricolores, fomos alocados num setor bastante isolado e com um policiamento tão forte que em nenhum momento sentimos medo.

Perto da entrada, a polícia começou a abrir um clarão. Eram torcedores do Sporting a chegar com suas bandeiras e cânticos. Os encarnados atiravam-lhe garrafas e outras coisas mais, os policiais seguiam a abrir o clarão. Como a minha entrada se encontrava justamente do outro lado do clarão, tive de ser rápido e atravessá-lo, mesmo ciente da proibição. Já perto de concluir a faina, um policial me empurra, empurra a outros, e diz, “já disse que não é para ficar aqui”. A mim diretamente não tinha dito nada, e muito menos que me empurasse. Retruquei, “não me empurra que não sou cachorro e sei andar”. Depois, estive a pensar como denominamos o movimento de deslocar-se dos cachorros e acho que era mesmo andar. Mas o policial não atentou muito para isso, creio.

Dentro da Luz, éramos intimidados pelos olhares atentos daqueles policiais com capacetes e por uma massa de torcedores encarnados que a qualquer instante avançaria, sem que os policias de capacetes pudessem impedi-los.

A grande atuação dos Leões, na primeira etapa, calou a Luz e nos encheu de esperança. Não houve erro tático, imprecisão, descuido. O único ponto débil foi as finalizações. Poucos, bem que se diga, mas que não poderiam ser desperdiçadas. Há de se abrir na Luz sempre que possível.

Quando Cardozo, o centroavante encarnado, levou uma pancada no tornozelo e por pouco não foi substituído, a humanidade entendeu o destino e se conformou. Com ele, o placar foi aberto, minutos depois. Dali, esperou-se o gol de Aimar para os 2×0 e a volta para casa.

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