Ao contrário da minha história argentina, em que o Boca representou, desde antes de qualquer amor, uma antipatia, ou mesmo da minha relação com o futebol italiano, com o qual sempre mantive uma postura repulsiva quanto a Milan e Juventus, Portugal foi o lugar das pequenas simpatias. Pequenas, sim, porque salvo uma camisa do Sporting, que eu admirava na infância e achava que era o Coritiba, um pôster do FC Porto, trazido pela minha tia-avó, nos anos 90, e aquele conhecimento geral da final Santos (Pelé) x Benfica (Eusébio), nos anos 60, que, verdade dita, nem sei se foi assim mesmo, nem sei quem atuou onde nem quando, a não ser quando reviso arquivos. Quer dizer, sei, posso saber, mas não tenho recordações. Salvo essas pontuações, o futebol português sempre me foi aquele menos atraente. Algo que se reforça pelas limitações, inclusive de tempo, e pela ignorância, que não deixa de ser uma limitação.

Mas o cronista dispensa os limites, dispensa aceitá-los. Por essas, um cronista, quando se encontra na Polônia, visita um jogo do campeonato local, ou caminha três horas (ida e volta), na Romênia, para ver um amistoso de início de temporada. E se o cronista recebe a chance de acompanhar as rodadas finais de uma Liga, seja ela qual for, ele tem de preparar seus instrumentos e lançar-se à tarefa.

Desde que nasci, carregava nove jogos em Portugal, todos em Lisboa, e oito deles em 2010.. E eis que agora surge o clássico, mais dito derby, entre as equipas do Benfica e do Sporting. E surge justo num momento em que o Benfica se aproxima do título e o Sporting, sem lá muitas pretensões, só pode levar como ânimo a esperança de prejudicar esta conquista, que só pode ser alcançada pelo algo modesto Braga. A minha preferência pela equipa do Alvalade aponta uma tendência, o que não chega a ser peso, por conta da minha já citada falta de antipatia pelas equipas daqui. O meu amigo poeta, inclusive, é benfiquista, e talvez até me desse as mãos para caminhar à Luz, elaborando uma amizade, ou um tom de amizade, que, no Brasil, dispensa-se: ele é Vasco.

Meu amigo poeta está no Brasil, e o Benfica não pretende me dar mãos de ninguém para ir à Luz. Os bilhetes para o clássico contra o Sporting estão restritos aos sócios, que, caso queiram, podem levar – pelas mãos, até – um não-sócio. Não conheço sócios encarnados, e não vou ficar parado a uma bilheteira, a perguntar ao gajo se ele, enquanto sócio, quer a minha mão. Sabe-se que o cronista nunca cogita a possibilidade de não ir ao jogo, ainda que ela tristemente exista.

O Sporting coloca no seu sítio a notícia de que os bilhetes para o derby, três mil, serão vendidos todos ao preço de 22 euros. Mas se o Benfica, como equipa local, dispõe de mais ou menos 62 mil lugares e só so vende a sócios – ou a não-sócios que dêem a mão a sócios –, por que cargas o Sporting faria diferente?

Fez. Próximo texto.

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