Já se sabe que a crônica persegue o cronista. Fosse um não-cronista, haveria entrado no estádio, com os já adquiros ingressos, procuraria um lugar vazio, comemeria algo com minha amiga, trocaríamos opiniões sobre o jogo, eu lhe diria minha impressão sobre o estádio, jogariam as equipes, volta para casa, tudo certo. Mas o cronista, perseguido, é dispensado dessas experiências doces.

Encontrei-a na esquina combinada, caminhamos umas quadras e lá estava o Monumental, com torcedores do Quilmes em frente a uma bilheteria. Há uma separação entre sócio e “convidado” (invitado), e, pouco experiente em estádios – minha amiga só fazia visitas ao Monumental acompanhada do pai, que sequer pelo River Plate torce –, ela me alerta que o meu bilhete era de torcedor visitante, por conta do invitado. O dela, sem problemas, pois era um ingresso destinado às mulheres, que sejam sócias ou não, pagam o mesmo – e mais barato que os homens. Havia as opções: cada um num lugar, eu de visitante, quieto. Trocar o ingresso na bilheteria. Comprar outro e perder o dinheiro do “falso” ingresso. Decidi por uma quarta: vender meu ingresso. Mas como?

Minha amiga, notei ali, não tinha jeito para as crônicas, e coube a mim, estrangeiro e pela primeira vez num estádio argentino, tentar vender meu ingresso. Abordei uns dois na fila de visitantes, mas não me deram muita atenção. Ela repetia que na bilheteria, com o bilheteiro, nem pensar, porque “é Argentina”. Eu não tinha dinheiro para outro ingresso, mas ela insistia que me comprava um. Ficamos ali, entre todas as indecisões, enquanto cerveceros compravam suas entradas de visitante.

Já alguma aflição, quando me aparece um rapaz alto, aparentava ser bem jovem, com a camisa do Fluminense. “Nense!”, grito. Ele me olha, saúda, se posiciona na fila. Acerco-me, ofereco meu ingresso, deixando, antes, umas meias palavras sobre o Fluminense, o River, o Quilmes, a vida toda. Hesitante, compra-o. Como nasci para a crônica, mas não para o cambismo, fico a espera dele, para oferecer o dinheiro de volta, caso ele não conseguisse entrar. Meu colega escreveria, “batata!”. Ele não entra, vem com cara de sonso, e, alguma sorte, é encaminhado por uma policial a uma outra entrada, por onde, finalmente, desaparece dos meus olhos.

Com algum dinheiro na mão, eu e minha amiga fomos para a bilheteria e, com os ingressos para o setor popular esgotados, ela acabou por comprar dois bilhetes de plateia. A entrada feminina, não válida para este lugar, ficou de lembrança com ela.

Semanas após, descobri que o meu ingresso de invitado na verdade não se destinava ao setor visitante, mas sim por ser um ingresso com preço para não sócio. Mas tudo já havia virado crônica.

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