by Mitchell

Comecei a minha carreira de espectador em 1990, num Fla x Flu que terminou 1×0 para a equipe tricolor, gol de Donizete, numa falha, segundo os comentários de Léo Batista, à noite, de Júnior e André Cruz. Voltei ao estádio somente em 1992, quando, aos 12 anos, não necessitava mais que alguém me levasse. Desde então, mantive uma boa regularidade, com exceção entre 1996 e 1999. Em 2007, acompanhei 117 jogos, sendo 27 deles na Argentina, onde fiquei 32 dias.

Tantas vezes em estádios, tantos times que não jogaram contra o meu – o Fluminense -, tantas equipes desconhecidas, tantas que sempre fizeram parte do meu imaginário e as quais sempre quis ver. Cada vez dentro de uma torcida adversária era, com o perdão da obviedade, atravessar uma fronteira. Era, mesmo, um estrangeiro. Mas não posso deixar de falar em níveis.

Algumas torcidas e algumas equipes sempre me foram mais simpáticas. Com outras, aprendi a conviver. Há até casos em que o estádio foi o responsável pela simpatica, como os casos do Clube Atlético Banfield ou do Vélez Sarsfield. Afinidades também podem surgir por rixas locais, mesmo em lugares estranhos a mim, como em Frankfurt, onde a antipatia com o Eintracht Frankfurt me fez um bom convidado a um jogo do FSV Frankfurt contra o TuS Koblenz, pela segunda divisão alemã. Companhia também modificam rumos, como os meus repetidos – e sofridos – Vasco x Botafogo, nos quais estive com meu amigo poeta.

A partir de hoje, começo a escrever no Cronicaturas uma série, entitulada simplesmente de “Times pelo Mundo”, na qual falarei, a cada semana, de uma equipe que tenha conquistado o direito de estar na lista de simpatias, preferências, e, por que não, imenso carinho. Das 157 equipes que pude ver em todos esses anos, escolhi onze para estar nesta série.

 

Fluminense Football Club

 

A História do Fluminense é, para a maioria dos torcedores brasileiros, bastante conhecida. Fundado em 21 de julho de 1902, por Oscar Cox, a equipe das Laranjeiras sempre esteve ligada à Aristocracia, e, o que a difere dos demais grandes clubes cariocas em sua fundação é justamente o fato de ter surgido como um time de futebol, enquanto os demais eram clubes de regata. Não me cabe, aqui, resumir os quase 108 anos de existência, listando conquistas e ídolos, falando do hino ou das cores do uniforme. O motivo para que o Fluminense abra a série é tão simples quanto qualquer outro torcedor poderia prever: sou tricolor.

O acontecimento que leva um indivíduo a optar por um time de futebol é bastante complexo, e muito mais construído posteriormente que recuperado por elementos históricos confiáveis. Ao contrário da pertença a um país, que tende a iniciar-se ou no lugar de nascimento ou na origem familiar, a afiliação afetiva a um clube de futebol não se explica, em regra, por fatores deterministas. Isso não anula, claro, a tentativa.

A idéia mais forte que prevalece para explicar por que eu tenha me tornado tricolor é o título brasileiro de 84. Nesse ano, nasceu minha prima, e seu pai, então marido da minha tia, sempre foi um partidário para me convencer a ser Fluminense. Com ele, disputavam minha tia, que é Flamengo, e meu tio, vascaíno. O primeiro marido da minha tia, morto em um acidente de carro quando eu tinha um ano, era botafoguense, e não teve tempo para me causar muita coisa. Precisamos olhar certos dados.

Minha prima nasceu em outubro, e, portanto, nada teve a ver com a conquista do Campeonato Brasileiro, em maio. Por outro lado, a final foi realizada justo dia 28 de maio daquele ano, ou seja, exatamente no aniversário da minha tia. Mas o que fazia eu durante a partida? Pelos relatos, é muito provável que minha tia tenha oferecido uma festa – ela já estava grávida – e que eu não tenha tido contato com o marido dela. Bem verdade que – e disso me lembro bem – ele me deu um pôster do Fluminense campeão, o qual, antes de me entregar, abriu e apontou o nome de cada jogador. Eu, aos 4 anos, admito que não conhecia ninguém. Anos, muitos anos depois, consegui um pôster semelhante – aquele se perdeu pelas arrumações na casa, das quais eu ainda não participava – que um amigo de colégio me deu, não sei nem bem por quê.

Existem outras explicações mais frágeis, que não merecem um relato. Fica, assim, oficializado que o pôster do Fluminense campeão brasileiro de 1984, me dado pelo marido da minha tia, marca o meu nascimento como torcedor tricolor. Mas isso diz muito pouco. Outros presentes me foram dados, como um boneco de pano, vestido de Flamengo, que eu apelidava de “Menguinho”. Futebol está no campo, e é preciso falar de jogos. Próximo texto.

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