O Cordão do Bola Preta desfilava para uma multidão na manhã de sábado de carnaval no Rio de Janeiro. Atravessava a Rio Branco cantando marchinhas e sambas-enredo. O povo seguia os caminhões, pulava e dançava. Fazia do carnaval o desmonte de todo resto. O tempo, apenas uma distração. Três bolivianos conheciam de perto a famosa festa, e imaginavam tudo diferente. Talvez tivessem como referência o desfile no Sambódromo. Às vezes, um ensaiava um molejo, outro se ria dele, intimidavam-se. Procuravam entender as letras. Não havia êxtase. Quando veio a saturação, foram passear pelo Aterro do Flamengo, comer. O Fluminense só encararia o Vasco às 18:10, restavam horas e horas.

A má campanha do Tricolor na Taça Guanabara fez do clássico contra o Vasco, na última rodada, um atrativo turístico, não mais. Dos cariocas que não viajaram, muitos queriam o carnaval e os blocos, os bailes, as festas. Ou escapar de tudo isso. Se muito, o Maracanã seria ponto de encontro. Eu, com um torcedor do Bolívar e outro do Jorge Wilsterman. O terceiro boliviano ficou no samba.

Para que conhecessem bem o Maracanã, enfrentamos a fila para comprar ingresso para as cadeiras inferiores, ouvimos a notícia de que haviam se esgotado as entradas naquela bilheteria, mas que trariam mais, e depois pagamos meia sem precisar da carteira de estudante. Entramos com cerca de cinco minutos de jogo. Atrás do gol do Ricardo Berna, embaixo da torcida vascaína, tive de lhes explicar que comemorar gol estava proibido. E logo aos onze minutos coibiram nosso direito. Soares.

Notava-se na partida um ritmo de fim de festa. O Fluminense conseguia ligeira vantagem, demonstrava um pouco mais de interesse e disposição. Até que Berna recordou nosso estágio atual e a situação vexatória de jogar já eliminado. Falhou e permitiu que a cabeçada mal dada de Leandro Amaral entrasse, aos trinta e um. Tivemos força e Cícero, dez minutos depois, nos deu a chance de sair para o intervalo tranquilos.

Aproveitamos a pausa e fomos sentar-nos devidamente na parte tricolor. Para que o passeio fosse completo, deparamo-nos com situação inusitada. A PM só nos permitiria passar para o outro lado das cadeiras quando o segundo tempo estivesse prestes a comecar. Houve revolta e reclamação. Um senhor, bem idoso, pedia ao policial que o prendesse, pois passaria de qualquer maneira. Juntava as mãos, aguardando as algemas.

Acomodados, um rapaz a nossa frente se vira e nos pergunta, em mal português, o que significa “craque“. “Very good player“, foi o que me saiu. Agradecido, explicou ao amigo do lado. Foi o tempo justo para ver Alex Dias roubar a bola na direita e cruzar para Soares. Também de um cruzamento da direita sai o gol de Leandro Amaral, aos oito minutos. Preocupa-me sofrer uma virada, o que dirão de nós na Bolívia? Romário entra. Costuma ter sorte contra nós.

Carlos Alberto recebe a bola, parte e toca para Alex Dias, que lhe devolve com precisão, de primeira.O nosso dez chuta em cima do goleiro, a bola sobre e vai na direção de Alex. Ele vai dominar, tentar um drible, chuveirinho. Chuta, antes de a bola tocar no gramado. No ângulo. Cássio salta apenas para a foto. Golaço, golaço. Golaço, porra. Quatro a dois, que vitória!

Quando Leandro Amaral fez, de pênalti, o terceiro dele, o empate de 4×4 fechou a conta. Os bolivianos saíram felizes. Meu amigo poeta, vascaíno, estava em Búzios, pensando no Flamengo e nos blocos.

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