by Vinícius Mitchell

1990 não foi um ano fácil. Eu estava na quarta série, encerrando um ciclo escolar, preparando-me para os difíceis anos da segunda parte do ensino fundamental, que na época se chamava primeiro grau ou qualquer coisa próxima. Na Itália, 24 seleções se encontravam para mais uma edição de Copa do Mundo. Os argentinos chegavam como campeões. O Brasil era uma crítica só, e, pouco antes de o Mundial começar, conseguiu um resultado negativo contra um combinado da Úmbria. Os italianos confiavam no fator casa, como de praxe.

Assistir a uma Copa do Mundo exige força e habilidade. Aos 10 anos, minhas obrigações escolares me imprimiam uma responsabilidade imensa. Eu, um camisa 3, sentia-me dentro de uma 10. E não era a 10 da estreante Costa Rica. O peso.

Vez ou outra, é preciso ter sorte, como versa a máxima para um grande goleiro. Se o zagueiro está ali, tão perto, e se sua função em muito se assemelha a do arqueiro, então é viável que o defensor se apropria dessa máxima. E sorte tive ao poder assistir ao jogo inaugural daquele Mundial, entre Argentina e Camarões. Sempre imaginei que essas partidas se realizassem em fins de semana, o que não era problema com a aula. Realmente, não recordo por que estava eu na escola, no mesmo dia daquela abertura. Terá sido o jogo num dia de semana? Importa pouco. O fato é que colocaram um telão e transmitiram a partida. Antes do apito inicial, o professor de Educação Física, Ricardo, discursou, lembrando que éramos muito jovens na Copa de 86, e essa seria a nossa oportunidade de ver Maradona jogar. Mais parecia aula de Educação Moral e Cívica.

Mas tirar a sorte grande não é mesmo um destino do zagueiro. Passado aquele jogo, em que meus colegas gritavam “Camarão”, como incentivo à equipe de Roger Milla, o telão nunca mais voltou para os nossos olhos, a não ser para ver Macunaíma, no auditório. Foi nesse ano, que descubro o papel do líbero.

O time está pressionado, o meio-campo não funciona, os volantes não acertam passes, os armadores estão bem marcados. De trás, cabeça erguida, gestos duros, o líbero sai, fazendo tabelas, carregando a bola, instruindo, abrindo o campo adversário. È preciso todo o senso de orientação. Um erro tático é a maior fatalidade possível.

Como acompanhar uma Copa do Mundo, preso dentro de uma sala de aula?

Minha mãe trabalhava fora, no famoso horário comercial de 8 as 17. Minha vó, um ou dois anos antes, havia se mudado. Eu praticamente morava sozinho. Como os horários dos jogos, na Itália, correspondiam ao horário comercial brasileiro, pude esquematizar para não perder certas partidas importantes – para mim, todas o eram, mas naquele momento, tive de aprender, como bom líbero, o momento da escolha. A partir de indigestões, vômitos, dores de cabeça, consegui faltar a algumas aulas e ver alguns jogos.

Todo ser humano falha, e com o líbero não é diferente. Calculei mal em certo instante e não pude faltar a aula justo na semifinal Inglaterra x Alemanha. Para complicar a minha vida, meu televisor, de madeira, falhava junto comigo, e não ligava no primeiro toque ao botão. Controle remoto, não havia. Com isso, logo que cheguei em casa, o que corresponderia o meio do segundo tempo daquela semifinal, e liguei o televisor, ele me negou as imagens. Foi um drama. Na época, nada de internet para amenizar o desespero e, pelo menos, saber a quantas andava a partida. Empurrava o botão, nenhuma imagem, sequer som. Puxava, Esperava, empurrava. Repetia isso lentamente. Mais rápido. Socava a televisão, como me havia ensinado minha vó. Socava em cima, dos lados. Empurrava, puxava. Nada.

Vi no telejornal, que a Alemanha ganhara na decisão por pênaltis.

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