Alguns gostam de falar em coincidências. Outros, mais ousados, em metafísica. Um craveiro n’ água.

Quando recebi a confirmação do encontro do meu programa de mestrado, a ter lugar em Lisboa, deixei todas as pequenas coisas de lado, como ver passagens e albergues, e fui ao sítio da Federação Portuguesa de Futebol, a saber quais equipas jogariam na cidade, durante meu fim de semana lá. Surpresa, não havia partidas programadas. Retornei a minha origem, visitei o site da Bundesliga, e constatei que, também por aqui, nada de jogos pelo campeonato alemão. Data FIFA?

As seleções ainda disputavam as Eliminatórias, e, se a última rodada caía justamente a meados de outubro, então era de se prever que o meio de novembro, meus dias em Lisboa, estariam reservados para a repescagem.

Tensão. Nada de filas, nada de noite virada, como em Buenos Aires, para River x Boca. Nada de cambistas a vender bilhetes por preços inumanos. Para o confronto Portugal x Bósnia Herzegovina, partida de ida da repescagem, venda preferencial para torcedores do Benfica, por conta de um simples motivo, pouco, ainda que estranhamente, condenável, que se relacionava ao fato de o Estádio da Luz ser o lugar do combate.

Escrevi para meu amigo poeta, a pergurtar-lhe se conhecia algum sócio do Benfica. Não.

Somente no quinto dia de vendas, os bilhetes seriam disponibilizados pela internet, para torcedores comuns. A partir da minha experiência alemã, já desconsiderava as chances de obter uma entrada, iniciava um cálculo que me desse caminhos a câmbio negro. Estava convicto de que metade de Portugal faria qualquer esforço para estar na Luz, nesse 14 de novembro de 2009.

Sorte. Nos primeiros minutos da venda on-line, adquiri meu bilhete, que deveria ser levantado até uma hora antes do início da partida, em determinada bilheteria.

Antes mesmo do sorteio da repescagem, havia dito ao meu citado amigo poeta que a Bósnia seria o adversário mais ingrato, embora, por tradição, se considerasse o contrário. Não gosto da atual Ucrânia, e nem contava com dificuldades portuguesas contra uma Irlanda ou Eslovênia. Já com os antigos iugoslavos, via uma defesa fraca, mas um ataque muito perigoso, com um trio que frequentemente inferniza nos fins de semana da Bundesliga. Meu amigo poeta, penso, não enxergava esses riscos, até pela sua distância em relação aos jogos da Bundesliga. Ou, talvez, pela sua leitura histórica. Segundo ele, Portugal não iria ao lugar que nunca foi seu, o sul do sul da África.

Caso visto, a partida de ida, em Lisboa, não foi das mais tranquilas. Sequer para levantar o desejado bilhete. Uma fila de quarenta minutos, enquanto um certo automóvel alternava duas canções. Uma, de incentivo – com tons de cobrança – a seleção portuguesa. Uma segunda canção superava a primeira. Uma voz feminina, com sotaque brasileiro, largava versos em ritmo de funk carioca, com uma letra que gostava de afirmar uma inferioridade cultural brasileira.

 Hino cantado, apito inicial. O jogo transcorreu com muita expectativa portuguesa, sem dispensar um enorme sofrimento. Não houve lusas assustadoras chegadas, apesar do golo ainda no primeiro tempo. Salvo uma grande jogada de Liedson, tão luso quanto eu, em que certo golão seria, após tirar o defesa do caminho. Os bósnios, por sua vez, acertaram três vezes o ferro.

Tudo passa nessa vida.

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