Quando Miroslav Klose deu a sua tradicional cambalhota, em Moscou, passou pela cabeça dos alemães que a Copa do Mundo 2010 estava muito perto. Certamente, muitos russos já se conformavam, enquanto Klose aterrizava mal, após o movimento curto da cambalhota, com a repescagem. Eu, que pouco com isso tenho, lamentava a prematura classificação alemã, assim, na penúltima rodada das eliminatórias. E o motivo não tinha nada de social. Semanas antes, havia adquirido por internet, como de praxe, o meu ingresso para Alemanha x Finlândia, em Hamburgo, pela última rodada das eliminatórias. A situação antes do jogo contra os russos, em Moscou, era ainda favorável aos alemães, que possuíam um ponto de vantagem. Portanto, um empate manteria o jogo contra os escandinavos como algo sério, sem que houvesse, ao confirmar a vitória, qualquer risco de não se classificar. Uma derrota contra os russos e ganhar da Finlândia não seria muita coisa, pois os russos, que deste modo ficariam dois pontos à frente, teriam a fácil tarefa de derrotar o Azerbaijão. Uma vitória alemã resolvia tudo: Alemanha, na Copa; Rússia, na repescagem; eu, num amistoso com nome de jogo oficial. E a cambalhota do Klose ficou nisso. 0X1, em Moscou.

Jamais havia pisado em Hamburgo, e a viagem interessava pelo acréscimo da cidade, ainda que a motivação tivesse partido do jogo. Chego um dia antes, percorro ruas, sem uma direção pré-definida, pego metrô, analiso meu mapa, dou-me conta da proximidade do estádio. Passo, com propósito, em frente ao estádio do Saint Pauli, segundo time da cidade e que goza de certa popularidade entre os demais alemães, uma espécie de Portuguesa ou América-RJ. Durante a minha viagem, o time, cujo símbolo é uma caveira, faria apenas um jogo, fora de casa, pela segunda divisão. Pena.

Dia do jogo, encaminho minhas coisas, sem muita apreensão. Meu cérebro, menos bobo que eu, sabia que aquilo não passava de um amistoso mascarado. Vou ao aeroporto, busco uma amiga, levo-a ao hotel, conversamos, comemos, distraímo-nos. Saio para o jogo menos de uma hora antes do início previsto – previsto, aqui, é visto, sabe-se. Apenas cinco ou seis estações de metrô. Identificava-se facilmente o objetivo através de um pequeno estádio desenhado ao lado do nome de uma das estações, nas placas nos vagões e nas estações. Ademais, bastava seguir o fluxo de camisas da Alemanha. Não menos, eu trajava uma delas, na versão usada na Copa de 2002. E não era dizer que eu me satisfizesse com essa ironia. Desço na estação correta, contorno um túnel – não é a primeira vez que passo por um pequeno túnel para chegar a um estádio, na Alemanha. Norma? Dou de cara com um parque e com uma parada de ônibus. Começaria o drama, logo imaginei. Ônibus comuns, que faziam o trajeto da estação até o estádio, que se localizava sei lá onde no meio daquele parque. O público, já se sabia, mais de 50 mil pessoas. Eu que pagasse a minha conta por não ter tido a tradicional prévia apreensão. Se bem fosse um amistoso mascarado, tocariam, do mesmo jeito, os hinos. Necessitava recuperar minhas habilidades de Maracanã em dia de final, quando não se entra esperando um simples funcionamento das coisas. Posicionei meu corpo em uma das filas, bati aqui e ali, esbarrei, desviei, fui lançado e lancei. Estava dentro do ônibus, em poucos minutos. Ajudava o número de ônibus, mesmo que atrapalhasse o número de gente. Sou revistado – apenas em Stuttgart não revistam os torcedores comuns? -, entro. Dez minutos para o começo da partida. Tempo para os hinos.

O ambiente é favorável, bandeiras alemãs agitadas, cânticos, temperatura suportável de 9 graus. Notava-se, inclusive, uma semelhança com os nossos jogos da seleção, no Brasil, quando a presença de não-torcedores, é dizer, do não público comum do futebol, aumenta. Gente que está ali com mais espírito festivo que compromissado. Problemas do nosso tempo. Perfiladas, as equipes cantam seus hinos. Ao contrário do que eu esperava, o hino finlandês é respeitado. O alemão, cantado, forte, enquanto as bandeiras continuam a ser agitadas. Cacau, o brasileiro naturalizado, canta junto. Eu solto os primeiros versos, abandono, não é tarefa minha. Ao meu lado, vozes marcam a letra, crianças e velhos, mulheres. Aplausos. Ao jogo.

Como havia perdido as escalações anunciadas pelo locutor do estádio, tive de reconhecer os jogadores no olho mesmo. Como se sabia, inventaram um time de amistoso. No ataque, os reservas Cacau e Mario Gomez, no meio, Trochowski, do Hamburg SV, para agradar aos locais. Schweinsteiger, cada vez melhor e a quem queria ver, no banco. Ballack joga, mas só pela bucrocracia. Faz um primeiro tempo morno, sai no intervalo. Do lado finlandês, Jonatan Johansson completava 100 jogos pela seleção, e por isso ganhara flores das mãos de Ballack. Sami Hyypiä, ex-Liverpool e atual Bayer Leverkusen, na formação. E quem mais me interessava, lá também, Jari Litmanen, com seus 38 anos e 128 jogos pela esquadra nacional. A partida é um desfile de má tentativas de Mario Gomez e Trochowski, junto com um meio-campo finlandês que trabalha muito bem, sobretudo pela organização de Litmanen. Fica o primeiro tempo 1×0 para os visitantes e o pequeno grupo de torcedores filandeses ecoando alguma canção que se repetia e se repetia e se repetia. Após o intervalo, não mudou muita coisa. Mario Gomez sai vaiado, entra Klose, Litmanen sai aplaudido, naquela que pode ter sido sua última partitição em jogo de eliminatórias. Nunca se dura o bastante. Já dentro dos cinco minutos finais, a Alemanha resolve deixar a cara daquilo mais engraçada, faz uma breve pressão e empate, com Podolski. Estávamos todos contentes.

 O caminho da volta exigia o ônibus até a estação de metrô. Em mais ou menos 15 minutos, eu estava dentro de um daqueles ônibus, apesar dos mais de 50 mil presentes, saindo ao mesmo tempo do estádio – alguns ficavam no bar próximo, outros cruzavam o parque a pé. Em casa, anotei na minha lista minha partida de número 456. A primeira em Hamburgo.

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