VfB_BlogPela terceira vez em seis anos, o VfB Stuttgart atinge a fase de grupo da Champion’s League. Pela terceira vez, os escoceses do Glasgow Rangers caem no grupo dos suábios, que ainda recebem a companhia do favoritíssimo Sevilla e da surpresa romena Unirea Urziceni. Um grupo, diz-se, superável, sobretudo contando com a prévia resignação alemã de se contentar com um terceiro posto e a vaga na fase seguinte da Europa League, antes denominada UEFA Cup. Não sei se coisa de quem pensa pequeno ou pensa justo.

Conseguir os ingressos não foi tarefa árdua, embora algum risco tive de correr. Desde junho, sou sócio do VfB, numa designação que corresponderia ao brasileiro “sócio-torcedor“. Não posso pisar no clube, praticar esportes por lá ou coisa assim. Mas tenho prioridade na compra dos ingressos e desconto. Com essa prioridade, obtive as entradas para as três partidas da fase de grupo, num pacote que não inclui a venda separada de cada jogo. A não ser que o indivíduo vá ao mercado negro, coisa por aqui, ainda, mais humilde. Retomo: obtive os ingressos preenchendo um formulário que recebi na caixa de correios do prédio onde moro. O dinheiro foi debitado da minha conta, enviado para a mesma caixa de correios, e tudo certo. Isso. O risco girava em torno da capacidade atual do estádio. Com as obras, há mais sócios que lugares, e cada sócio pode comprar mais de um ingresso.

Aguardava uma noite fria, mas até que a temperatura ajudou. Eu, que já tive de passar intervalo de jogo no banheiro, em certa partida no inverno, e certa vez quase não consegui pegar as moedas do meu bolso, para pagar uma bebida, por causa das mãos quase congeladas, passei a levar roupa suficiente para uma temperatura cinco graus abaixo do previsto. Funciona.

Não era minha primeira partida de Champion’s League, graças a um bonito Atlético de Madrid 2×1 Olympique de Marselle, no Vicente Calderón. Era, porém, minha primeira Champion’s League com todo o envolvimento de uma frase de grupo inteira, a disputa pela vaga, a estréia, a torcida e o time que já conheço de quase todo fim de semana, pela Bundesliga.

Minha chegada foi triunfante. Quando o trem parou na estação central de Estugarda, entraram escoceses, muitos, muitos escoceses. Cantavam. Ao sair do trem, tive de descer a escada da estação perto do estádio junto deles. No meio deles. Bêbados. Alguns diziam coisas como “I love Germany“, estendiam a mão para os alemães, brincavam. Esbarrei num deles, sem querer. Abriu os braços, demonstrou certa impaciência e chateação. Segui meu caminho.

A coisa é realmente outra, quando se trata desta competição. Como de hábito, obtive ingressos para o setor onde as pessoas ficam sentadas, e só se levantam mesmo em situações muito específicas, como um gol ou ao som do cântico “Stehe auf, wenn ihr Schwaben seid“ (Levantem-se, se vocês são suábios). Uma espécie alemã para o nosso popular “Sai do chão, sai do chão, a torcida do Flusão“ – ou do Mengão, Vascão, Fogão, como preferir. Fico com Flusão, apesar de. Pela primeira vez, assisti, em Estugarda, em pé a um jogo. Os primeiros quarenta e cinco minutos, sem folga. E no segundo tempo, apenas os primeiros cinco minutos. Como não havia policiais ou alguém da turma do “senta“, famosa no Maracanã, não houve outro jeito. E isso foi engraçadinho no primeiro tempo, quando o VfB liderou o placar, 1×0, gol do russo Pavel Pogrebnyak, contratação de quase última hora para substituir Mario Gomez, vendido ao Bayern de Munique. O rapaz chegou com a fama de ser jogador de seleção, embora seja um reserva, bom dizer. Mas tem lá guardado os seus gols, mesmo com a fase suábia não sendo das melhores.

O segundo tempo mudou de cara, e tivemos de ver, em pé, ao domínio escocês. Com a justeza de ser um time de gente muito nova, sem nome. Um time com muitas fraquezas ao ser atacado, mas com um toque de bola um pouco além do aceitável. Acredito que sairão contentes se ao final da fase de grupos estiverem em terceiro e classificados para a Euroleague. Como os romenos não devem pensar diferente e o Sevilla só pensa no primeiro posto, conjecturo quem se interessaria pela segunda vaga.

Ao final, vaias. Escoceses cantando, e meu caminho de trem, de Estugarda para Tubinga, com parada em Eslinga. Os meus noventa minutos de sempre.

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