IMGP0909Na Romênia para acompanhar uma semana de curso de idioma. Curso que dura três semanas, bom dizer, mas para o qual não consegui bolsa, e, sem dinheiro, não se negocia. Por alguma boa coincidência, era Cluj-Napoca, cidade com a qual tenho há muito certa intimidade, por meio de uma amiga com quem mantive 6 anos de contato virtual e conheci ano passado, na Espanha. Destas coisas, destes deslocamentos.

Cluj-Napoca é ainda a cidade romena com mais ligação com a Alemanha, mais exatamente com os alemães da Suábia, que, sem acaso, é onde estudo. Mais ainda, o CRF 1907 disputou, com grande ânimo e algum êxito – derrotaram a Roma, na Itália, e empataram com o Chelsea, em Cluj – a fase de grupos da última Champion’s League. E me contentava em, durante as férias das ligas européias, poder pelo menos visitar, ver o estádio onde além dos times citados, também o Bordeaux jogara. Fiz isso.

Dali, para uma cafeteria, jornal, qualquer coisa gelada, passar o tempo. Abro o diário direto na parte de esportes, como de praxe. E estranho alguma coisa, algo sobre o Steaua Bucuresti. Se bem meu romeno é pobre, algo consigo extrair numa leitura. E, sim, haveria um amistoso contra uma equipe turca, no sábado. Sim, no sábado, justo no sábado, o único sábado, o único dia no qual eu estaria em Bucareste, antes de retornar para a Alemanha, para a Suábia. Aquilo era missão.

Encontrar um estádio nem sempre é das tarefas mais fáceis, mas no caso do Steaua, estava convicto de que qualquer policial ou jornaleiro me poderia explicar. Estando num albergue, não teria problemas de receber todas as detalhadas informações do recepcionista. Nem bem chego, pergunto. Malas fechadas, sem banho, nada. Queria saber onde é o estádio. O recepcionista, com algum estranhamento, me diz que é torcedor do Steaua. Isso facilita. Tranquilizei-me, teria tudo esclarecido. Mas ele me adia a explicação com “vou ver qual o ônibus e depois te digo“. Não disse.

Fui caminhar, comer alguma coisa. Na volta, comprei um mapa. Bastaria abri-lo, localizar o estádio, no máximo mostrar ao recepcionista. Tarefa concluída. Certamente, algum ônibus, na pior das hipóteses uma combinação ônibus-táxi – táxi diretamente seria suicídio financeiro, em Bucareste eles podem surpreender com uma tarifa milhonária. No albergue, abri o mapa, achei um estádio não tão distante, a pé seria possível. Mostrei ao recepcionista. Equivoquei-me. Ele pega o mapa, vai até um amigo, conversa algo, volta. Vira o mapa pelo avesso, e do outro lado estava o estádio do Steaua. Começo a pensar se valeria a pena encarar. Ainda com a tarde pela frente, decido dormir.

Cinco da tarde, desperto com barulho de chuva. Temporal em Bucareste. Coisa forte mesmo, próxima destes filmes ruins sobre apocalípse. Céu tombado. Nada de jogo. Saio para comprar alguma coisa para comer, volto enxarcado. Divido o sofá da sala com estrangeiros que falavam uma língua parecida ao alemão – holandeses? Assistem ao Tour de France e fazem comentários. Não sei quais tipos de comentários, se sobre a competição, se sobre a roupa dos ciclistas, sobre o narrador romeno, ou se relembram alguma história de infância, quando saíam para pedalar pelas ruas de Amsterdã ou Roterdã. Faziam comentários. E não sei se eram mesmo holandeses.

A chuva pára, aparace algum sol, saio em direção ao estádio. Com o trajeto na cabeça, desafio a distância. Isso era por volta das 18:40, talvez. Ciente de que chegaria cedo ou tarde, minha preocupação começou a ser a volta. Se o jogo estava marcado para 21:45, as chances daquilo começar atrasado era grande, e haveria retorno possível, sem que fosse a pé? Caminhava e pensava nisso, ensaiava a pergunta, em romeno. Mas a quem?

Na Romênia, os bilhetes de ônibus são comprados em quiosques, espalhados pelos pontos. Estes quiosques, porém, fecham muito mais cedo que o horário de funcionamento dos ônibus, e, àquela hora, sábado, já estavam todos fechados. Sem bilhete, voltar de ônibus só poderia ser através de uma viagem ilegal, e torcer para que o fiscal, assim como os funcionários dos quiosques, tampouco estivesse interessado em sábados laborais. Não. Esse risco, dispensaria.

Com uma hora de caminhada, desconfio do meu trajeto, feito com o mapa à memória. Abordo uma senhora, que vem na direção contrária. “Unde este stadionul lui Steaua?“. A resposta saiu suave, informando-me que bastava pegar o 385. Mas se os quiosques estavam fechados e não tenho bilhetes? Nem ela sabia a solução para isso. A pé? – “pe jos“, em romeno. E ela me explica de três formas, todas indicando um fácil caminho em linha reta, “meia-hora“, “trinta minutos“ e “três vezes dez minutos“. Como notara que eu era estrangeiro, talvez tenha querido praticar este didatismo interessante. Fui.

Bilheterias do estádio, sem filas, sem tumulto. Peço um ingresso para tribuna. Pedem-me algo. Não entendo. Pedem de novo. Não entendo, parece coisa como cartão, cartela, algo assim. Apenas sócios? Digo que não entendo e ela simplesmente fica olhando para minha cara, calada. Diz algo para a colega do lado, volta a olhar para mim, nada diz. A colega tenta algo. Entendo. Teria de ter um documento de identifição. Uso meu passaporte. Demora um pouco e o recebo de volta, junto com o ingresso e meu nome impresso nele.

Antes de entrar, ainda penso na volta. Queria alguma certificação de que seria possível chegar ao albergue depois do jogo. Pergunto a um policial, que, numa boa tarefa burocrática, me indica outro, que segundo ele sabe mais sobre estas coisas de ônibus e bondes – na Romênia, há bondes. Vou ao indicado, pergunto. Nada de ônibus, depois do jogo, é tarde e eles não funcionam mais. Mas sábado, à noite? Questionar não adianta. Um colega dele me diz que com 20 ou 30 RON (a moeda nova, que eles ainda chamam de LEI, a velha) eu chegaria a certa praça, a quinze minutos a pé do albergue. A última vez em que confiei em informação de preço de táxi foi do aeroporto de Bucareste para o albergue, portanto, naquela manhã mesmo. E o resultado não fora dos melhores. De todas as maneiras, uma vez diante do estádio e com o ingresso na mão, não caberia voltar.

Logo encontrei meu lugar, que, por conta da chuva, tinha o assento alagado. Justo o meu. Sentei no do lado e fiquei na expectativa de que não chegasse o dono do lugar. Havia ainda uma hora para o início da partida. Nenhum problema, porque estávamos entretidos com apresentações das mais variadas. Não necessariamente boas, como um grupo vestido com roupas de época – medieval? – que fazia peripécias com bandeiras do Steaua. Um pouco fora de sincronia. Logo, umas meninas com fumaças coloridas, correndo pelo gramado de um lado para o outro, euquanto luzes de discoteca davam o tom pirotécnico.

Não era um amistoso qualquer. Aquela partida estava válida como a apresentação do elenco. E um a um os jogadores foram entrando, com seus nomes escritos em laser, no gramado, mais luzes de discoteca e a saudação dos poucos – pouquíssimos – torcedores presentes. Lembrar que o ingresso não estava caro, mesmo para os padrões romenos, causava mais dúvidas sobre a não presença do público. Nenhum jogador conhecido para mim. Na verdade, de todos os nomes das duas equipes, conhecia apenas o treinador do time turco. Thomas Doll, alemão, que formou parte, inclusive, do meu time de futebol de botão, nos anos 90.

O jogo foi pouco digno. Um 0x0 que deve ter desesperado a ambos treinadores, se pensarmos que a temporada está à porta. O Steaua tinha mais posse, mas não criava nada. A equipe turca mostrava um toque rápido, mas ruim. Não tenho sequer a lembrança de um lance de perigo.

Ao fim da partida, peguei uma revista que haviam deixado largada num assento. Uma dessas revistas que distribuem antes dos jogos, com informações sobre a partida, entrevistas, algum dado histórico. Coisa boa, que ainda não vi implementada no Brasil. Sem ônibus e sem vontade para táxi, restou-me o caminho a pé. Demorei o tempo justo de uma partida para chegar ao albergue. Sem intervalo.

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