Tubinga é uma cidade ao sul da Alemanha, possui um pouco menos de 90 mil habitantes e sua vida gira em torno da Universidade, fundada em 1477. Com isso, praticamente um quarto da população é formada por estudantes, oriundos de todos os lugares possíveis e mesmo dos não imagináveis. Além das atividades acadêmicas, a cidade proporciona, durante o ano, eventos dos mais variados, desde exposições a concertos de música clássica e popular, desde campeonatos universitários de atletismo e karatê a competições típicas, como a de barcos muito parecidos as famosas gôndolas venezianas. Por aqui, eles levam o nome de Stocherkahn. Dentro disso tudo, há equipes de futebol, claro.

Ainda que não seja propiamente uma força, o TSG Tübingen é sem dúvida o grande nome da cidade. Ou pelo menos o único que escuto com maior frequência. Disputam uma liga regional, equivalente a uma divisão impensável – quinta? sexta?. Há rivais, ou, digo melhor, outras agremiações na cidade. Eu mesmo treinei por seis meses numa delas. O glorioso TSV Lustnau, que durante aquele torneio em que acompanhei treinos, jogos e vestiários, brigou intensamente para não ser rebaixado, objetivo nao alcançado. Somado a isso, ainda existem os tantos lugares para a práticas das peladas, por aqui nomeadas Kicken, além da – ótima – quadra poliesportiva da Universidade, onde é possível a prática de futsal.

Superando o futebol, o basquete goza de uma equipe que atua na primeira divisão nacional, chamada, como no futebol, Bundesliga. A equipe de nome fantasia – Walter Tigers – é na verdade o clube SV03 Tübingen, e não obtém lá grandes resultados na temporada. Mas eles são contentes do mesmo jeito, já que lograr a permanência na elite do basquete local é sempre a primeira meta.

Outro destaque local é a equipe de atletismo LAV Asics Tübingen. Pouco sei da história desta equipe, admito, mas a simples presença de Dieter Baumann, duas vezes medalhista olímpico nos cinco mil metros, sendo uma delas de ouro, impõe muito respeito.

Vivi aqui o clima da Eurocopa 2008, vendo bares lotados e carreatas após as vitórias alemãs e turcas. Depois da partida final, vencida pela Espanha, a impressão que se tinha era a de um domingo como outro qualquer.

Justo nesta cidade, onde vivo por conta dos estudos, recém acompanhei a Copa das Confederações. Não havia muito entusiasmo, nas ruas sequer se notava a diferença entre um dia de jogo ou um dia qualquer. Talvez pela ausência da Alemanha na competição, talvez pela pouca importância que europeus costumam dar a coisas que lhes sao pouco importantes, como o Mundial Interclubes.

Minha televisão e a cobertura do torneio por um canal de tv aberta me mantinham longe dos bares e dos desinteressados. E jogo a jogo, chegava uma tranquilidade e um regozijo. A classificação, os italianos fora, a semi-final impossível com a presença dos norte-americanos, a derrota espanhola. O gol de falta do meu não-ídolo Daniel Alves, na semi-final contra os sul-africanos, parecia apenas confirmar toda a configuração de leve satisfação. Nenhum risco, nenhum drama, nada, nada para mover o mundo; sequer decadência.

Recebo visita. Um amigo, há quase um ano por aqui, prestes a retornar ao Brasil. O futebol a ele é coisa pouco convincente, e o primeiro tempo começa com nossos diálogos e a minha quase total indiferença a partida. Aguardava os gols e o momento de considerar aquele torneio como mais um dado a ser registrado em qualquer memória. Vem um gol norte-americano, aos dez minutos. Coisa chata. Ainda muito cedo, logo viramos. A conversa perde um pouco da distração, passar a existir comentários sobre o jogo, mesmo que levianos.

Intervalo, saímos para comprar alguma coisa para comer – não há supermercados abertos aos domingos, a opção é uma loja de conveniência, em certo posto de gasolina vizinho. Ao pegar o elevador, outro brasileiro – sim, há muitos por aqui, a coincidência se anula -, a quem indaguei “não vê o jogo?“. A resposta muito se assemelhava àquela que eu daria caso não estivesse estado diante da televisao. “Não. Já ganhou?“. E, apesar das aparências, ninguém falava de oba-oba. Outro terreno, o nosso.

Gastei ao máximo o tempo na loja de conveniência. Pensava em retornar com o segundo tempo em andamento e o placar favorável, 3×2, que fosse. À porta do meu prédio, despedi-me de meu amigo, cuja namorada o esperava, decerto sem televisão ligada. Subi, a coisa andava 2×1. Nem me recordo a quantos minutos, mas era o suficiente para um empate e uma prorrogação, pênaltis, o que fosse.

Gol. Bastante apertado, bola na trave, cabeçada firme, gol. 2X2. E com tempo para o terceiro. Nenhum grito; sequer o meu. Pelo skype, liguei para um amigo e gritei “gol“, duas, três vezes. “Estou vendo“, disse ele.

O terceiro gol veio. Novamente, nenhum grito vindo dos arredores. Nem o meu. Nem skype. Vencíamos. Após a entrevista do Lúcio, mal traduzida pelo narrador alemão, desliguei a tv. Cabia buscar alguma tarefa.

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