O Botafogo enfrentava o Americano no Maracanã, enquanto eu buscava uma rádio que transmitisse o decisivo jogo tricolor na Taça Guanabara, contra o Nova Iguaçu, em Édson Passos. Se bem não pude ir por receio da volta depois das 22h, sobrava-me o alento de não ver o time desvanecer no segundo tempo por conta do calor. Seguia procurando. A segunda etapa teria início em poucos minutos, e impacientava-me mais não saber o resultado que não achar uma estação; todas no Maracanã. Gosto do rádio, dessa narrativa em alto teor, cuja missão consiste justamente em deixar espaços a ser preenchidos pelo ouvinte, atuante, como o leitor. Entretanto, pedir o sacrifício é coisa muita. E que o rádio seja o espaço do literário nos jogos dos outros, não no meu. Porque é sofrimento não ver a bola a caminho, ou quando se a tem no campo de defesa. Mais quando o narrador é dado aos exageros, diz de um passe lateral no meio-campo um lançamento preciso, ou de um arremate às nuvens um chute que tira tinta da trave. O narrador de rádio encarrega-se da mesma consciência do escritor. Não cabe mais a narrativa cadenciada dos anos 50, 60. Menos o louvor dos 70, a vibração dos 80 ou o entusiasmo dos 90. Por isso, os debochados e irônicos – mais estes que aqueles – promovem melhor a narrativa do tempo nosso.

O ouvinte mandara recado, pedia “por favor, narre um gol para acordar meu pai que está roncando alto aqui”. Mas estava difícil. O narrador, neste momento, aproximava-se do cronista. Não lhe seria complicado criar um gol. Não o pode, porém. Sua incumbência é apropriar-se dos elementos vividos, do experimentado. Como o cronista, o narrador se proíbe da mera invenção. Desta forma, ficou o ouvinte desapontado e o pai roncando, porque ambas equipes não possuíam a qualidade para o gol. O placar, em 1×1, fruto de dois pênaltis na primeira etapa. Sob os holofotes, o Botafogo derrotava o time de Campos, e a cachorrada se transformava em uma torcida a mais para zombar da nossa condição.

Vínhamos de derrota fora de casa para o Volta Redonda, equipe, dizem, bem ajeitada. A liderança do Voltaço cabe a Sérgio Manuel, veteraníssimo com passagens por discordantes clubes. Agora, diante do Laranjão, empate ou derrota e a classificação tricolor às semifinais estaria ameaçada, pediriam a cabeça do treinador, a destituição da diretoria e a prestação de contas do patrocinador. Os adversários nos provocariam nas ruas e onde fosse, obrigando-nos à mudança de assunto, que falássemos de política ou até novelas. Constrangidos, encontrar-nos-íamos todos os tricolores, eliminados da Taça Guanabara, numa rotina que faz da derrota um hábito. Por isso mesmo, qualquer resultado negativo diante do Nova Iguaçu traria somente um técnico a balançar. Todos os outros sismos morreram na tradição.

O comentarista abusava da nossa sorte e deleitava-se: “O Fluminense não tem bons cabeceadores. Nem bons cruzadores”. Antes de qualquer análise tática, enganou-se, pois somos da estirpe mais nobre. Damas de outras torcidas nos reverenciam pela elegância e bom trato. E enganou-se mais; quando nosso treinador pôs a prova de nossas habilidades: o cabeceador Adriano Magrão e o cruzador Lenny. No intervalo entre uma substituição e outra, o Botafogo marcou o terceiro e rabiscou três pontos na tabela.

Jogamos até os 50 minutos. Ao apito final, pegamos a calculadora e fomos esperar o fim da rodada.

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