Desde uma atuação precisa do Fernando Belluschi, diante do Vélez-Sarsfield dirigido pelo fanfarrão Ricardo La Volpe, eu não pisava num estádio argentino. Isso levava quase dois anos, aquele Monumental não cheio num domingo de sol benvindo. A esquadra riverplatense deixava o terreno orgulhosa dos 5×0 sobre os fortineros. Eu acenava sem mãos a uma despedida que se sabia longa. Mesmo mais longa que o meu não previsto retorno.

A casa não era desconhecida, mas o modo de comprar o ingresso, sim. Em Morón, já para além dos limites de Buenos Aires, reencontrava o time local, vulgo Gallo, para uma partida contra – com ou sem ironias – Sarmiento. A data tinha algo de atrativo, por ser um 2 de abril, feriado nacional em lembrança a batalha nas Malvinas.

Na minha única visita a este estádio, em 2007, adquirsanlorenzoBlogia-se ingresso por uma janela de ônibus velho. Um modo inusitado, mas de eficiência nem inferior nem superior aos containers de Sarandí ou aos buracos na parede, sob o anúncio “Boleterías“. Entretanto, 2009 cobre 2007, e há minicontainers, novos, pintados, lustrados. O preço também se lustrou com o mais pecaminoso verniz.

Admito, Morón 3×2 Sarmiento fazia apenas prévia dos meus jogos mais esperados nesta Argentina 09. Não sou de recusar partidas, sequer diminuí-las; comparto a alegria de estar em Temperley ou em Moça Bonita na mesma escala de ter visitado o Nou Camp e não morar longe da agora Mercedes-Benz Arena, algum dia Gottlieb-Daimler Stadion. Uma arquibancada de cimento não se rebaixa a uma cadeira bem ajustada. E nenhum outro lugar do mundo pode ter mais importância que aquele lugar onde se está para um pouco mais de noventa minutos de futebol. Pelo menos, não durante este tempo. Com as evidências.

E, se não desprezo, faço porém uma hierarquia mal arrumada. E nela, Sarandí, casa do Arsenal, ocupa bom lugar. As visitas de 2007 e a simpatia, culminando com uma festa efusiva diante da TV, já quando eu havia retornado ao Rio de Janeiro, vendo o Arse sagrar-se campeão da Copa Sulamericana, com gol em final de jogo. Mais adiante, vê-los cair por 6×0 ante o meu Fluminense, num Maracanã com recepção digna de torneio intercontinental.

Pois o Morón da quinta animou o Arsenal da sexta, numa partida contra o San Lorenzo. Como conhecia bem o caminho, não saí do albergue com tantas horas de antecedência. Vestia uma camisa falsificada, que me havia custado 30 pesos num camelô de porta de estádio. Jogo das 19:30, possível que na volta devesse sentir frio, se não levava uma blusa. Mas tamanho orgulho de mostrar a camisa do Arsenal, a demonstrar que, sim, os torcedores deste pequeno time estao ali, sem vergonha de se expor.

Na caminhada do albergue até a estação de trem, uns vinte minutos, fui saldado por um senhor que bradou, “Dale, Arse!“. Tive a certeza da vitória. Já no trem, não encontrei companheiros, e algum temor senti quando passaram três rapazes com camisas do Ciclón. Sentava-me no primeiro vagão e ali havia apenas trabalhadores voltando do trabalho, no pior horário do pior dia, numa das piores linhas de trem da cidade. Paciente, observava o vai-e-vem, sem realizar elocubrações acerca das grandes cidades, dos cidadãos amassados em transportes públicos ou do modo portenho de se comportar. Esperava, não mais. Havia certa demora, gente e mais gente subindo no trem, e nada de se anunciar horário de partida.

Comecei a ouvir cânticos de estádio, atentei-me se não poderiam ser torcedores do San Lorenzo. Cada vez mais alto, bumbos, pessoas na plataforma olhando para trás, os que estavam dentro do trem, trocando olhares entre a curiosidade e a angústia. Quando avistei o primeiro policial, tive a certeza de que a coisa não me sairia bem. Certamente, a torcida do Arsenal dispensa escolta policial. Mais policiais, uns quatro apenas, e um grupo, vinte, trinta torcedores, não sei. Cada vez mais perto, escutava “vamos Ciclón vamo’ a ganar, y la Gloriosa va a festejar, vamos azulgrana voy a morir, sin el Ciclón no sé vivir“. Saída, nenhuma.

Um rapaz do assento ao lado me jogou uma blusa, a vesti quase debaixo do banco, enquanto uma senhora tentava me dizer que nada aconteceria. Todos os olhares estavam para mim, como se aguardassem o espacamento para liberar suas compaixões.

O grupo ainda não subira no trem, aproximou-se um policial, e, pela janela, me perguntou se eu não queria descer. Trocamos algumas opiniões, até que ele subiu e me escoltou à plataforma. Não houve grandes reações, a não ser um riso ou otro. Até que o trem saísse, estive ali, com os quatro policiais, conversando sobre como chegar ao estádio. Falava para desviar a situação, pois estava certo de que não teria mais como ir ao jogo. Um torcedor chegou a gritar, quando o trem arrancou, “deixa ele vir conosco, precisamos de alguma coisa para bater o bumbo!“.

De volta ao albergue, entre a indignação, o susto e o desânimo, triste por perder o jogo, mas consciente da sorte de ter tido aquele policial para me tirar do trem, fiquei no meu quarto, que dividia com mais cinco pessoas. Um australiano, procurando uma tomada, ouviu da moça inglesa, “não há tomada no quarto. Você sabe, South America is South America“. Ela tinha alguma razão.

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