roberto-tunelTALVEZ alguém tenha imaginado que compreender o mundo pelo futebol fosse uma tarefa audaz. É bem possível que haja escrito esquemas, fórmulas e modelos teóricos complexos, sustentando teses e postulando as bases para o que bem poderia ser uma carreira acadêmica tal qual Química, Biologia, História. É ainda muito provável que este alguém se tenha deparado, a certa altura, com dificuldades de aparência insuperáveis, questões epistemológicas terríveis. Afinal, em que área caberia o futebol? Seria uma atividade humana, haja vista seus desdobramentos emocionais, as angústias causadas, a paixão, o sentimento de pertença? Ou mais caberia deixá-la no campo das ciências exatas, reduzindo seus mecanismos táticos a aplicações matemáticas furiosas? Não faltariam os críticos ousados, querendo trazer o futebol para os institutos tecnológicos. Ao fim e ao cabo, a idéia inicial seria suplantada por todas as perguntas e o futebol se veria, outra vez, na mão de todos os outros campos do saber, como simples objeto de pesquisa.

O jogador pobre que se vê rico do dia para a noite, aos cuidados do psicólogo, o torcedor adotando um time como nação, tarefa do sociólogo, a distribuição espacial das equipes, tanto nas cidades quanto nos países, escopo do geógrafo. Ainda viriam estudar fenômenos diversos os nutricionistas, historiadores, filósofos, pedagogos, físicos. Nada, então, mudaria. E a cultura gerada pelo futebol continuaria subtema para os grandes temas.

A inquietação seguia a toda no tal indivíduo, e se bem reconhecia a impossibilidade de se inserir Futebol como carreira acadêmica, permanecia mais que convicto do menosprezo de algo reduzido a objeto. Chegou a conjeturar a formulação do Esporte como nova área, baseando na Geografia e na Letras a sua formulação. Defendia que, se tanto as relações políticas quanto a materialidade espacial cabiam na Geografia, e, se tanto o puro estudo de uma língua quanto os enfrentamentos com a literatura estavam na Letras, o Esporte poderia muito bem conviver com essas divergências de um jogo individual, outro coletivo, outro uma disputa na água, outro na terra, outro com equipamentos, outro com animais. No fim, o esquema era tão magnânimo que nem o próprio formulador era capaz de segui-lo.

Papéis amassados e jogados na lixeira não matavam seus pensamentos. E a visita a cada novo estádio, deparando-se com cada modo tão diverso desde a simples compra do bilhete – por vezes uma simplicidade barroca – até os efeitos visuais e sonoros no estádio lhe asseguravam uma participação mais atuante naquilo que se denominava estudo.

Caberia nas artes este jogo desafiador? Não são poucas as obras em que o sujeito joga bola, treina, discute, xinga, torce por certa agremiação. Há cinema, teatro, prosa, poesia, dança. Há de tudo. Em época de Copa do Mundo, há até tudo de tudo. E isso pode irritar. Melhor não se deixar ser mais um a não entender que antes do futebol, a obra – seja ela qual for, música, pintura, literatura – respeita os princípios da sua matéria. Se o futebol finalmente sai do baixo status de objeto, tampouco ganha primazia. Passa a ser um elemento em desfiguração, apropriado a nova linguagem estabelecida. Assim, fica guardado o futebol na mesma gaveta do assassinato passional, do marinheiro sobrevivente e da batalha familiar. Por sorte, às vezes alguém resolve misturar as gavetas, misturar os temas das gavetas, misturar tudo. Isso não impede que o futebol careça da consagração de tema menor.

O indivíduo acaba mesmo resignado e reconhecendo que o único jeito de se abordar o futebol devidamente é jogando. Caso contrário, não passa de caricatura.

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