QUEM GUIA O PAÍS? sexta-feira, set 15 2017 

Resultado de imagem para futebol pintura muro

 

 

Conversava eu, certa vez, com um sociólogo belga que mora – ou morava? – no Rio de Janeiro. Era amigo de uma amiga argentina, que por aqui andava para estudos de doutorado. Sabemos que devemos combater os preconceitos, e tanto sabemos que somos bem preconceituosos, como eu, que sempre penso que sociólogos ocupam suas vidas nos dizendo aquilos que já sabíamos. O problema, claro, não é deles, mas meu.

Isso importa pouco, de repente nada, porque o que importa é que o tal sociólogo – belga -, ao saber que, àquela altura, eu andava com 726 jogos na minha carreira de espectador, perguntou se eu não enjoava, pois jogo é sempre a mesma estrutura. Não dei as respostas que deveria dar, até pelas educações que se aprendem pela vida, além de que, no fim das contas, dissesse o que dissesse, ele continuaria a pensar que o futebol não é coisa de sociólogo, e quando o é, que caiba na mão, ou nas páginas, como mero objeto de pesquisa.

Isso faz lá uns anos, acho que três ou quatro, e como não tenho contato com ele, não posso dizer-lhe que ontem, em Fluminense 1×0 LDU, enquanto eu me aproximava da entrada, me vi de repente numa briga entre dois – cambistas? – que começaram a se estapear, a ponto de eu ter de empurrar um deles para que eu pudesse passar. Também não pude contar para o sociólogo das minhas duas experiências distantes com o time equatoriano.

Em alguma noite de verão alemão, madrugada, na verdade, meu amigo poeta me narrava, por skype, as cobranças de pênaltis daquela final de Libertadores, em 2008. Era Fluminense x LDU, e a coisa se complicava à medida que nossos batedores perdiam as cobranças. Antes de que fosse decretada nossa derrota, a conexão se cortou, a ligação caiu, e eu fui saber, lá pelas 6h da manhã, que o título era equatoriano. Em 2009, sem naração por skype, mas com pirataria – o tal streaming? Assim se chama? – vi Fred ser expulso, na madrugada alemã, e o título da Copa Sulamericana ir para Quito.

Não, não tenho raiva da LDU, não nutro nenhum sentimento de revanche, como quis implantar a torcida do Fluminense, na véspera deste jogo de oitavas-de-final da Sulamericana de 2017. Mas desconfio que foi isso que levou mais de 45 mil torcedores ao Maracanã, e talvez tenha sido este clima que fez a torcida, apesar de toda cantoria e festa, não ser tão impactante quanto fora, por exemplo, em Fluminense 3×1 Atlético-GO, partida seguinte à morte do filho do treinador, Abel Braga. Os 20 e poucos mil que ali foram para um certo acolhimento a Abel ecoaram muito mais do que os 45 mil. Também isso não pude dizer ao sociólogo.

Muito menos pude contar que, após a vitória de 1×0, iniciada com um gol de falta de Gustavo Scarpa, dando-nos a ilusão de uma chance de goleada, me despedi de um sujeito, um senhor, que chegara de bengalas, por seu problema na perna direita, tirara um saco do bolso, já com os times em campo, e comera um ovo cozido. Em 751 partidas em estádio, nos nove países que percorri – por diferentes razões – em jogos, nos quase 80 estádios, em tudo isso que não é nada demais para os outros e não entram nas contas das pesquisas, mas que é muito para mim, em tudo isso, jamais vira alguém comer ovo cozido num estádio de futebol.

O juiz apitou, a torcida foi embora correndo, inclusive o senhor que, se não podia correr, conseguiu de todos modos sair bem rapidamente dali. Eu fiquei, como sempre fico, até que a multidão se afaste e eu possa caminhar tranquilo.

Ao pegar o ônibus, paguei os R$ 3,60 da passagem com duas notas de R$ 2,00 e recebi R$ 0,50 de troco. Como diria meu amigo sagitariano, no Brasil há contradições que não se contradizem. Sentei, peguei meu livro – como costumo chegar cedo, levo algum livro ao estádio – e nem bem tinha lido duas páginas do Bioy Casares, senti o ônibus se contorcer. Era o motorista saindo, na última hora, do caminho errado. E graças a uma passageiro, que permaneceu um tempo ali perto da roleta, se dizendo fazer as vezes de GPS. Depois que este passageiro desceu, outros foram assumindo a função, para que o motorista – do ônibus – não se perdesse. Depois de passar pelo Centro, imaginei que o motorista já tivesse seu rumo certo, até ele frear a condução e gritar “minha gente, viro aqui ou sigo reto?”. “Segue reto”, disse um. E assim foi, até que eu descesse do ônibus, no ponto correto – informação não tão trivial quanto pode soar -, sem me despedir do motorista como fizera outro passageiro, uns três pontos antes de mim: “Valeu, piloto, vamos na graça de Deus”.

Que nos ajude.

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Para falar de futebol segunda-feira, ago 22 2016 

Duas conquistas recentes, no plano esportivo, trouxeram à tona debates sobre arrogância, vaidade, falta de coletivismo e mais um monte de termos, prato cheio para os moralistas apressados e juízes fervorosos. Curiosamente, os dois envolvidos nasceram no mesmo dia – não no mesmo ano – e são, portanto, do mesmo signo – Aquário. Verdade que ambos gostam daquilo que a mim, admito, incomoda: presepada – que um aquariano dirá extravagância – e ar blasé – que um aquariano tomará como liberdade. Também verdade que opero com estereótipos e, não menos, piada e boa dose de impressionismo, pois tomo como característica de ambos aquilo que é meramente construção midiática, distante, largada no meu imaginário e aceita sem grandes filtros.

Mas o futebol, sim. Dele, gostaria de falar. Porque há quem não tenha a mínima atenção ao jogo, mas se incomoda com a postura dos dois recentes protagonistas de duas recentes conquistas. Isso cabe para a velha necessidade antropológica de referência, de uma figura para a qual olhamos e imitamos ou cultivamos ou na qual nos aparamos, etc e muito etc. Certo que jogadores de futebol deveriam estar nessa posição apenas para outros jogadores, mas uma série de fatores os leva a um centro curioso, que, mais curioso ainda, parece mover mais quem não entende do que quem entende e aprecia o jogo. Mas essa é uma afirmação leviana e rasteira, e já noto o quanto tentar falar disso sem falar de futebol me é meramente um exercício errante, quiçá errado.

O futebol, sim. Pois estava eu na casa de alguns amigos alemães, um pouco antes das quartas-de-final da Eurocopa, que, como se sabe, seria posteriormente conquistada por Portugal, de Cristiano Ronaldo. Era aniversário de uma vizinha desse casal de amigos, e o marido da vizinha, bom alemão, torcedor do Bayern de Munique, não demorou a descer as fagulhas no português frescolhento. Comentava uma cena antes da prorrogação contra a Croácia, pelas oitavas de final, em que Cristiano Ronaldo era massageado por dois profissionais, enquanto os outros jogadores, apenas por um. O alemão bradava que “não corre, e ainda colocam dois massagistas para ele, um para cada perna”. Eu não disse nada, não disse, por exemplo, que aquela partida tinha me motivado uma crônica (https://cronicaturas.com/2016/06/25/o-vivo-contingente/), não disse que, naquela partida, Cristiano tinha tirado de cabeça um escanteio croata no fim do segundo tempo. Era o último toque na bola de uma partida sem gols.

E poderia ser dito muito mais, pois ou Cristiano Ronaldo é um robô e estamos sendo enganados ou ele treina, e muito, e sério, e bem, para render como rende, subindo para cabecear a uma altura impressionante, num tipo de impulsão difícil – Dadá Maravilha terá de incluir o quarto elemento a “só três coisas param no ar, o helicóptero, o beija-flor e Dadá”. Que haja um aparato de propaganda e palhaçada em volta dele, não elimina que, inteligentemente, ele trabalhe. Naquilo que lhe cabe, que é o futebol.

O futebol, claro. E temos agora um Neymar brigando, discutindo, se irritando com torcedor. E faixas na cabeça e mais sabe-se lá o que. Isso tudo, também sabemos, é já de uma época em que o jogador sabe que joga para uma TV – basta observar as comemorações. Com isso, com esse incômodo, há quem considere Neymar um enganador, um jogador fabricado pela imprensa e mais um monte de coisas. Que a imprensa é capaz de muita coisa, sabemos, tanto que aí estão aqueles que não gostam de futebol debatendo aquilo que não acontece no futebol, mas no entorno dele. Mas a imprensa – e posso estar errado, sem dúvida – não me parece capaz de acertar o passe que Neymar deu para Felipe Anderson, no segundo tempo. Como jogador de futebol, Neymar tem o péssimo hábito de cair, quando pode dar sequência a jogadas, mesmo com as investidas dos marcadores. Mas isso não é próprio do Neymar, isso é próprio do futebol brasileiro, que gosta de suposta esperteza. Por outro lado, o jogador evoluiu muito no que costumam chamar de “objetividade”, ou seja, é bem mais vertical e perigoso, diminuindo muito as antigas firulas que não prestavam para nada. Isso se viu nas Olimpíadas, inclusive na final. E isso se vê no Barcelona, no trio em que forma com Messi e Suárez. Não diminuiu a própria arrogância dentro de campo, mas aí, entra muita coisa, cuja especulação é infrutífera.

O problema do futebol brasileiro é enorme, até mesmo por não saber lidar com tudo que o futebol proporciona ou poderia proporcionar, incluindo os aspectos econômicos. Mas a administração do futebol não difere da administração de quase todas as áreas do país, com capitalismo clientelista, amadorismo, desperdícios, senhores e escravos, vestidos em outros nomes.

Para quem gosta de futebol, Neymar é bom jogador. Capaz de vender muito mais pelo que faz fora do que dentro do campo. Talvez precise aprender, com Cristiano Ronaldo, a distância entre a aparência e o trabalho que poucos verão. No fim, dois bons retóricos – não com a palavra em si -, como dois bons herdeiros dessa língua e dessas culturas de muito falar e nem tanto fazer. O português entendeu o segundo aspecto. Neymar?

Às armas, às armas… – Portugal, Campeão da Europa! terça-feira, jul 12 2016 

 

Definitivamente, o futebol é fascinante! Fascinante por sua imprevisibilidade, porque não é matematicamente enfadonho, porque David pode sempre bater o gigante Goliath e escrever um enredo para lá de ficcional, uma ficção que se torna realidade e lança a incredulidade por terra. Diga-se de passagem, um gigante digno desse atributo, um gigante em branco, azul e vermelho que poderia ter saído de campo vitorioso, mas seria apenas uma ratificação de uma matematicidade que, para os amantes do futebol, em certos momentos, cai por terra.

Quis o destino que o melhor jogador da equipe de David, o marrento CR7, deixasse o campo aos 24 minutos de partida com uma contusão, quando os mais pessimistas – me incluo entre eles –, achavam que a vaca, literalmente, tinha ido pro brejo. Mas não, eis que a “equipa” se tornou uma “Equipa” com “E” maiúsculo, jogando para si e para cada um dos companheiros. Do outro lado, uma legião de craques: Pogba, Sissoko, Matuidi, Evra, Giroud e a exceção Griezmann. Mesmo assim, os “rubros” de Rui Patrício, um gigante “guarda redes”, Pepe, Nani e Quaresma se superavam a cada lance, dentro de suas limitações, souberam reconhecê-las, e transformaram-na em força da Equipa.

Belas imagens de Saint Dennis, do Champs Élysées com a Torre Eiffel exibindo as cores lusas, da torcida portuguesa na Praça do Comércio em Lisboa, geradas nada mais nada menos do que pelo futebol, como diria certa vez um sábio, “dentre as coisas menos importantes, a mais importante”.

Um time desacreditado, e por que não? – com razão, apenas uma vitória nos 90 minutos, contra o surpreendente País de Gales de Gareth Bale, se sagraria neste domingo glorioso o Campeão da Europa! O verso do hino português se realizaria em sua concretude: “Nação valente e imortal!” E com toda a justiça, os versos do cronista e romancista português Henrique Lopes de Mendonça ecoam:

 

Desfralda a invicta bandeira

À luz viva do teu céu!

Brade a Europa à terra inteira:

Portugal não pereceu

 

O destino fez com que o “golo” da sagração, assinalado na prorrogação, fosse de um jogador português de origem africana – Éder, com raízes de Guiné Bissau. E esse é mais que um “golo”, é um “golo” que pode ressignificar esse aspecto, em que uma expressão como “um jogador português de origem africana” seja substituída, simplesmente, por “um jogador português”. Aí, sim, a nação de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral terá erguido sua taça mais gloriosa!

 

Elcio Cornelsen

Faculdade de Letras da UFMG

Bolsista de Produtividade

em Pesquisa do CNPq

Para inglês ver domingo, jul 3 2016 

 

A semana veio com os escandalosos debates em torno do Brexit, isto é, da decisão popular que conduzirá a Inglaterra a uma saída da União Europeia. O que, para alguns, é catástrofe do fim da Europa, de sua queda derradeira – após Grécia e Roma, também a Europa tem de ouvir o ameaçador “a sua hora vai chegar”. Talvez seja. E se a vez sempre foi dos bárbaros, não sabemos se caberá às barbaridades estadunidenses ou se ao protobárbaro brasileiro a condução do novo mundo – que vem sempre com muito do velho, para transformá-lo em clássico.

Sabemos que a Inglaterra, da liga de futebol mais cara disso que chamamos mundo, perdeu para a Islândia, nas oitavas-de-final da Eurocopa. A Islândia que não apenas tem uma liga menos do que modesta, como possui uma população que, do jeito que a coisa vai, corre o risco de ser menor do que o número de sócios do Benfica ou do Bayern de Munique (a diferença, hoje em dia, é de mais ou menos 100 mil a favor dos escandinavos). Uma derrota dessas causa muita coisa, e meu amigo botafoguense, de tradição escocesa, só não sentiu a tristeza porque o Reino Unido trouxe a vitória de Gales, nas oitavas de, logo, nas quartas. E lá na ilha vale qualquer vitória de qualquer um, como na velha piada com o tenista escocês Andy Murray: quando vence, é britânico, quando perde, escocês.

Sabemos que a Alemanha finalmente derrotou a Itália, quer dizer, não derrotou, mas pelo menos a eliminou, num torneio de peso – Copa do Mundo ou Eurocopa. Só na minha cabeça, eram quatro derrotas: 1970, quando Beckenbauer jogou de braço imobilizado, ato que seria repetido por Eduardo “Cachaça”, em 1992, jogando pelo Vasco da Gama o clássico contra o Flamengo. 1982, na final da Copa, na Espanha. 2006, na semifinal da Copa, na Alemanha. E 2012, mais uma vez semifinal, dessa vez Eurocopa, dessa vez na Polônia (ou seria na Ucrânia?). Com esse feito de finalmente se livrar dos italianos – não estou falando de política e zona do euro, senhoras, senhores e senhoros -, a Alemanha chega a mais uma semifinal de Eurocopa, sua nona. São três títulos até agora, três vices.

E a Inglaterra? A Inglaterra tem duas semifinais, nenhuma final. A Espanha, três vezes campeã, jogou quatro semifinais. A Holanda, que levou apenas uma vez, em 1988, jogou cinco semifinais – considerando seus três vices em Copa do Mundo, é mesmo a seleção do quase lá. E Portugal, que nenhum inglês veria como mais favorito do que sua seleção nacional, chegou, neste 2016, a sua quinta semifinal – fez a final em 2004, em casa, e conseguiu perder da Grécia. Interessante que dessas cinco semifinais, quatro são de 2000 para cá. Não cabe falar em “geração”, porque neste período há mais de uma. Mas cabe pensar como conseguiram isso, a partir de uma liga que sequer figura entra as principais do continente (fiquemos com Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e, já exagerando, França).

Não é nada demais que a Inglaterra, mais uma vez, não esteja entre os quatro melhores. Fizeram o favor de sistematizar o futebol e deixar para que os outros se divirtam. Verdade que sabem fazer bom dinheiro com isso, muitas vezes com dinheiro que vem de longe. Mas ir longe para buscar coisas é algo que a Inglaterra, colonizadora de mão cheia, sempre soube fazer.

Agora, se quiserem alguma alegria, terão mesmo de torcer para Gales derrotar Portugal. E se os galeses ousarem chegar ao título, pode haver festa, pode haver bebedeira e tudo mais. Só não poderão confiscar a campanha alheia. E nos anais, continuarão os ingleses com nenhum título, nenhuma final disputada.

O vivo contingente sábado, jun 25 2016 

 

Sentado no já tradicional Rússia Café, via o segundo jogo do meu dia – tive de pular País de Gales x Irlanda do Norte, para poupar os velhos gastos. Se mais cedo o lugar estava cheio para Polônia x Suíça, com vitória eslava nos pênaltis, a noite ficou abandonada, pelo menos no início, para o confronto dos portugueses com os croatas. Tanto que se não fosse a minha chamada no turco – o quiosque é dividido entre russos e turcos -, continuariam a ver o tal do Tatort, essa infinita série policial de infinito sucesso. “E o jogo?”, e ele, claro, mudou de canal na hora.

A partida amarrada – nenhum chute ao gol em noventa e poucos minutos – foi, obviamente, para a prorrogação. Lá, o Portugal um pouco melhor deu lugar a uma Croácia que foi crescendo durante esses breves dois tempos de quinze minutos. O local já estava bem mais cheio, aparentemente sem portugueses e croatas – no fim do segundo tempo, uma menina e dois rapazes brasileiros, penso que de Minas Gerais, passaram pelo local e comemoram e beberam algo. Apesar de toda a animação, o tempo curto fazia acreditar que a Croácia errara a tática, ou que Portugal acertara, a ter um sistema defensivo eficiente não pela defesa, mas pelo ataque e meio campo.

Pois é isso mesmo. De noventa minutos do nada fomos a uma prorrogação do muito. O que não é corriqueiro, mas também não chega a ser inédito ou tão surpreendente. Um gol croata, naquela pressão, colocaria as coisas no lugar do esperado. E uma decisão por pênaltis faria jus à lógica. Como de praxe, estava eu com meu caderno de anotações, e escreve exatamente o que está abaixo:

“115′ Portugal parece ter pregado. Mas o tempo agora é pouco para os croatas – trave e contraataque de Portugal. Gol”.

Não é difícil encontrar uma imagem desse gol, desse lance, no youtube. Talvez as edições atrapalhem, porque ele precisa começar na primeira parte do que escrevi acima, ou seja, ainda antes da trave. Foi uma arrancada pela ponta, não sei de qual croata, e um cruzamento desses que os antigos diriam “a bola estava pedindo para ser chutada”, pois cruza toda a extensão da área, perpendicular à linha de gol, os zagueiros não a afastam nem os atacantes a empurram. Na sequência, Croácia volta ao ataque e um cruzamento alcance um bolo de uns três jogadores que saltam e não sei se é cabeçada ou bola que bate em algum deles e vai em direção ao gol. O goleiro toca nela, e ela toca na trave, Portugal se salva e o jeito é bola para frente até o próximo ataque croata e respirar um pouco. Mas a bola para frente é nos pés de Renato Sanches, que arranca pelo meio e a passa para Nani. Não sei se aquilo foi um péssimo chute ou um passe dos mais magistrais, sei que a bola cai nos pés de Cristiano Ronaldo, limpa para um chute cruzado, para definir o 1×0 e consagrar ainda mais o consagrado jogador que, não apenas tinha batido o último pênalti do Real Madrid na disputa contra o Atlético da mesma cidade, definição da Champion’s League, não apenas tinha feito o gol que garantiu a Portugal o terceiro empate em três jogos e a classificação a essa oitavas-de-final. Cristiano Ronaldo tinha cabeceado uma bola aos 90 e poucos minutos do segundo tempo, rechaçando um escanteio croata. O último toque de uma partida sem chutes a gol.

Ao lance: Nani chuta, passa ou nem uma coisa nem outra, Cristiano Ronaldo tem o chute cruzado, o goleiro salva. A bola poderia ter ido para não sei quantas direções, mas ela quica e fica mais do que limpa para a cabeçada de Ricardo Quaresma.Gol.

Ainda há tempo para Vida, zagueiro croata, ver mais um lance seu passar perto do gol. E mais algum aperto, como a chegada do jovem Marko Pjaca, que não consegue definir uma jogada que se transformará em escanteio. Mais adiante, em outro escanteio, o goleiro croata vai para área, porém nada acontece. Portugal avança, numa partida que tem uma sequência de poucos minutos, da trave croata ao gol português, nem isso.

Antes de ir embora, vejo Vida caindo no chão, aos prantos. Não poderia ter outro nome.

A russa situação terça-feira, jun 21 2016 

Horror gaffe: Igor Akinfeev of Russia fails to save a shot by Lee Keun-Ho.

A ideia era ver Inglaterra x Eslováquia, mas ao sair do hostel, em Berlim, o primeiro bar com menos pompa – a crise financeira individual nem é crise, é constante – era praticamente um quiosque junto à estação de trem. Rússia Café, ou, mais exatamente, Россия café. Dois rapazes erguiam suas bandeiras e já cantavam o hino. O jeito era ali mesmo, para o outro jogo do grupo que começara com empate entre ingleses e russos e agora colocava os desesperados eslavos diante do surpreendente País de Gales de Gareth Bale e não apenas: Joe Allen e Aaron Ramsey.

Meti a mão na geladeira e peguei uma Baltika, cerveja russa, paguei para senhora ao balcão, cercada de sanduíches e doces russos, e fui com autoridade me sentar na cadeira livre mais próxima. Num alemão com sotaque e sintaxe russos, um daqueles boxeadores dos anos 80 me diz “não livre”. E lá foi o destino me levar para outra cadeira, do lado de um rapaz que não viria a ver o jogo, mas conversar comigo e com sabe-se lá quem no celular. Argentino, como eu descobriria após o primeiro gol galês, quando fui perguntando, em inglês, se era russo. Torcedor do Vélez, como a moça com quem vivi nos meus tempos argentinos. Estudante de intercâmbio, como outrora eu fora. Não perguntei o que ele estudava, soube apenas que não fala alemão, que o amigo ao seu lado era um canadense do Quebec e que largou a namorada para ficar com uma italiana que agora lhe enche o saco. Nessas conversas, notamos como se dá o processo de envelhecimento.

Veio o segundo gol galês, e um rapaz verdadeiramente chato, que se dizia dinamarquês, falava conosco em inglês e passava de entusiasta do futebol argentino a admirador do futebol brasileiro como se fosse um político em campanha. Depois, fala em russo com os demais russos, e não me cabia entender nada, sequer pressupor, pois eu queria apenas ver o jogo, que quase não via. O rapaz ainda nos mandou para Copenhague, onde o emprego – em restaurantes – é fácil, “a Dinamarca não é que nem França e Alemanha, lá basta falar inglês”.

Ainda no primeiro tempo, chegou a única moça bonita do local, uma russa sem cara de russa – que me pediu licença em russo para poder chegar à mesa à frente; eu já estava quase me convencendo que tenho cara de russo. Ela ficaria ali, sozinha, até os 88 minutos do segundo tempo. Tomaria apenas um copo – de plástico – de algo negro, que o argentino afirmara ser café com cocaína, mas que eu pressupunha ser qualquer bebida alcoólica semelhante à cerveja.

No intervalo, o argentino e o canadense foram embora, o dinamarquês encontrou um russo acompanhado da namorada (chinesa?) e eu pude ver o terceiro gol de Gales, arrebentando de vez com os pobres russos, em pífia campanha de quem terá apenas dois anos para montar um time menos ridículo para a Copa em casa. Comi uma espécie de pastel de carne, que até agora não sei se é bom ou ruim, terminei minha cerveja e, ao apito final, voltei para o albergue, já numa Berlim escura, pensando naquela viagem de 2010, em que iria a Moscou, não fosse o fato de eu estar em Lisboa e ter descoberto que o visto para brasileiros poderia ser obtido apenas no Brasil.

E ao lume de águas o rancor da vida quarta-feira, jun 15 2016 

 

Sabemos que o misticismo progressivo gosta de atacar o futebol pelas mazelas que nada têm que ver com o futebol, assim como já outrora tivemos o filósofo do dinheiro e, mais recentemente, temos o filósofo do poder. Não que as mazelas, o dinheiro e o poder não estejam-aí como problema. Mas não é deles que emanam todas as forças, como bem disse – e se não disse, talvez concordasse e até dissesse – o filósofo que procurava evitar as árvores e, pobre dele, muitas vezes acaba arvorecido pelos outros.

E o futebol, que se joga praticamente em toda parte, é uma espécie de espetáculo para uns – dos que gostam e dos que não gostam dele -, como se o espetáculo fosse a única coisa que ele pudesse ser. Há um modo de olhar, há um filtro, uma espécie de distorção ou apropriação ou subversão ou encaixe que podemos fazer com aquilo que, de forma simples, chamamos de fato. Seja lá o que de fato for.

A Eurocopa se joga, com as brigas entre russos e ingleses, com as velhas disputas nacionais – umas sérias, outras jocosas -, com os preconceitos velhos e novos, com o alto profissionalismo – que afasta alguns e atrai outros -, com a emoção de quem sabe o lúdico e com o policiamento dos ideólogos atentos a promover a libertação do homem pela via de seus totalitarismos mesquinhos.

E fechamos a primeira rodada da fase de grupos com um Portugal x Islândia, num curioso encontro entre um passado que abriu tanta coisa para a Europa e um passado que parece permanecer lá literalmente isolado, ainda que tanta coisa moderna tenha chegado, ainda que esse passado pareça existir apenas na língua. Uma seleção que tenta se afirmar, repetindo suas participações nos principais torneios, e uma seleção que estreia em importante competição. Um astro e um bando de desconhecidos que talvez vivam à sombra, para o espectador dos grandes centros, de certo atacante que jogou no Barcelona não sei quando.

De forma inesperada, a Islândia conseguiu empatar contra a pretensa – ou pretensiosa? – força portuguesa. Os jornais deram alguma ênfase no gesto de Cristiano Ronaldo, ao fim do jogo, que se negou a trocar de camisa com Aron Gunnarson. Também veio à luz a declaração do português, de que os islandeses comemoravam “como se tivessem vencido alguma coisa” e “por isso são pequenos”. Desconte-se a raiva pelo empate, não deixa de ser engraçado alguém estar na seleção portuguesa e ver o outro como pequeno.

Ainda nas notícias, já não as oficiais, surge a foto: “3% da população islandesa”. Era uma parte da arquibancada, no estádio francês. Pois era um país com um pouco mais de 300 mil habitantes, entendendo qual a experiência de participar daquele torneio que fora sempre algo distante, vivido por outros, alguns deles quase vizinhos. Era estar ali diante de coisas que importavam muito mais por tudo aquilo que, em fato, não tinha importância alguma.

Há um mundo desconhecido. Muitos. E uma quase impossibilidade de conhecê-los. Principalmente se nos negarmos a trocar as camisas.

Aí na terra falta futebol terça-feira, maio 10 2016 

Etwa 1.000 VfB-Fans stürmten den Rasen in der Mercedes-Benz-Arena

A vida se quer assim. Me lembro de um vizinho, com quem eu jogava bola, hoje policial e nem mais morando no Rio, que decidiu, em 1996, entrar para uma torcida organizada do Fluminense. O time vinha do grande título carioca de 95, com reação inesperada, culimando com uma partida mais do que sofrida contra o Flamengo, o 3×2 do gol de barriga do Renato Gaúcho. Me lembro desse vizinho, e me lembro que de 96 em diante, o Fluminense foi rebaixado três vezes – a de 96 conta nas estatísticas, mas não conta na vida real, coisas de Brasil – vinte anos depois, não mudou muita coisa em relação a esse aspecto. E me lembro como eu o considerava pé frio, desses com pé metido em bacia de gelo.

A vida se quer assim. Ano passado, estava eu aqui, na Alemanha, justamente quando arrancava a temporada 2015/16 da Bundesliga. Não falhei: fui à estreia do VfB Stuttgart contra o 1. FC Köln. Derrota. 1×3. Fez-se uma temporada terrível, principalmente no turno, até que o returno foi um pouco mais digno e o time começou a pensar não mais em rebaixamento, mas em competições europeias. Sonho. Breve. O que veio foi uma sequência de empates e derrota, com o rebaixamento novamente ali, a uns poucos pontos.

Não posso reclamar da vida. Voltei à Alemanha – sempre por estudos/pesquisas – na fase final da temporada. Não falhei: ingresso para as últimas três partidas. Mais precisamente: um cartão eletrônico que me chegou pelos correios, ainda no Brasil. A sequência em vista animava o meu amigo botafoguense, enquanto a mim cabia a preocupação: Bayern de Munique, Borussia Dortmund e Mainz 05. Dito mais claramente: líder, více-lider e uma equipe brigando por vaga em competições europeias.

Quis o mundo que a neve viesse em abril, durante a primavera. Por sorte, não veio num sábado, dia dos jogos, embora o frio das duas primeiras partidas, principalmente da segunda, não tenha sido fácil de enfrentar. Nem tanto pela temperatura, que era bem mais agradável que os -15 de VfB 3×1 Hoffenheim, há alguns anos, quando eu vi pela primeira e até agora única vez uma partida disputada com a bola laranja.

Perder de 1×3 para um misto do Bayern faz parte da vida. Perder de 0x3 para o Dortmund dando um baile, complica. Entrar na zona de rebaixamento e receber o motivadíssimo Mainz 05, de olho até mesmo na Champion’s League, não é bem uma tarefa que se deseje fazer com gosto. Mas, sabe a humanidade: sem sorte, nada feito. E o Gentner, o capitão, desviou um chute errado e fez, logo no início, 1×0 para o VfB Stuttgart. Pronto, o dia é nosso, minha redenção está montada, despeço-me da temporada com uma vitória e três derrotas, mas uma vitória que valerá a permanência na primeira divisão.

Gol do Mainz, e o primeiro tempo ficou 1×1. E preocupante, porque fora o gol e duas chances, uma delas bem clara, a partida foi da equipe visitante. A qualidade da equipe é merecedora de uma segunda divisão. Se não for de terceira. E não demorou tanto para o Mainz fazer 2×1, no segundo tempo. Sem competência, mas pelo menos com alguma vontade, o Stuttgart tentava a esperança de um empate, enquanto o Frankfurt, um dos rivais na luta contra o rebaixamento, vencia em casa o Dortmund – não menos que o Dortmund.

A contingência está aí. E o simbólico. E tudo aquilo que a ciência não alcança. Didavi tentou um drible, perto da área do Mainz, perdeu a bola, caiu e pediu uma falta. O juiz nada marcou. O Mainz fez uma sequência vertical de passes, Córdoba deu um tapa na bola, ganhou do zagueiro e a deixou clara para o colega de time, 3×1. Depois disso, o australiano Mitchell Langerak fez três defesas de monumento e evitou o 4, 5, 6×1.

O apito final trouxe uma novidade (para mim): torcedores invadiram o gramado e foram tomar satisfação com os jogadores. O que me surpreendia era a completa falta de ação daqueles rapazes e moças de jaleco fosforescente, responsáveis pela tal segurança. O pessoal entrava e campo e ficava por isso mesmo. Os jogadores ali – e os do Mainz comemorando com a torcida deles. Vai entrar a polícia. Vai varrer todo mundo daí. Jato d’água, spray de sabe-se lá o que, e se bobear, borrachada neles. Nada. E alguns jogadores lá, tomando a frente e conversando – se é que alguém podia conversar ali – com uns 200 torcedores, mais talvez. Os jogadores do Mainz, sem camisa, saíram por trás das placas de publicidade, apressados. Não foram sequer notados, poderiam ter ido embora caminhando com toda a tranquilidade.

E mais gente entrava no gramado. De todos os lados. E os de jaleco, nada. Polícia, menos ainda. Basta sempre lembrar: polícia fica apenas do lado de fora dos estádios, aqui. Os torcedores são revistados pelos jalecos – coisa recente, pois antes apenas no setor da torcida organizada havia revista, imagino que seja temor pelos recentes atentados em Paris – e num jogo, e da Alemanha – e em Bruxelas. Imagino. Não sei.

Os jogadores do Stuttgart conseguiram ir para o vestiário. Talvez a cena mais curiosa nem fosse a invasão, mas o locutor do estádio pedindo para os torcedores não entrarem em campo. Há momentos adequados para o silêncio. Ou, com tanta norma, de repente ele diz aquilo para anunciar não aos torcedores, mas às autoridades: “vejam, não estamos de acordo com isso, não representa nossa instituição”. Alivia nas punições futuras.

Já não sei quantos minutos, e nada. O rapaz ao meu lado seguia reclamando, em bom dialeto suábio, do time que sofreu 72 gols numa temporada, como pode sofrer 72 gols numa temporada, por mim, pode ir embora todo mundo da direção, não pode ser que toda temporada venham dois, três treinadores, o time não sabe o que fazer, os jogadores não entendem nada. E mais gente no gramado. Já começava a baderna mesmo, pois os de agora estavam nada preocupados com protestos, mas entravam para correr pelo gramado, tirar selfies, brincar de chute a gol – sem bola.

E o locutor resolveu falar outra vez: “se vocês voltarem para os seus lugares, os jogadores virão”. Ou seja: a torcida, que agora se concentrava na entrada do vestiário – ali havia seguranças mais seguranças, não apenas jalecos -, queriam que os jogadores encarassem a insatisfação deles. Coisas de ritual, pois aqui, no final de cada jogo, o time vai até a torcida e vê qual a reação. Pode ser até aplausos, mesmo com derrota. Ou pode ser que a torcida os mande de volta, como quem diz “hoje não quero conversa, estão de castigo”. Na rodada anterior, Mat Hummels, do Dortmund, sofreu tremenda vaia, enquanto a torcida aplaudia o resto do time após a vitória em casa. O motivo, o mais simples: Hummels anunciou que deve deixar o Dortmund, ao fim da temporada, rumo ao…Bayern. Justo para o Bayern?

Com mais de meia hora daquele vai não vai, sem polícia, sem quebra-quebra, sem corre-corre, me cabia era voltar para casa.

No dia seguinte, a notícia: torcedores do CSA espancaram torcedores do CRB, na final do campeonato alagoano. Em campo. Coisas da vida. E ainda aparecerá alguém falando de vira-latas, complexos, e, decerto, com o peito muito aberto.

 

Uma temporada de vices domingo, maio 1 2016 

Sabe a humanidade que os campeonatos europeus estão chegando ao seu final. Na França, o Pais Saint-Germain é campeão há tantas rodadas que já há quem nem se lembre que o campeonato existe. Se fizessem um terceiro turno e proibissem a equipe da capital de disputá-lo, o título continuaria com a defesa menos vazada do campeonato – Thiago Silva e David Luiz! Desse modo, a briga boa mesmo é pelo título de segundo lugar, entre Monaco e Olympique Lyon, com remotas chances para o Saint-Étienne.

Na Itália, a Juventus começou mal, bem mal, e tudo indicava uma temporada emocionante, com briga entre a Internazionale – que arrancou vencendo partidas nos últimos minutos -, a Roma, o Napoli e, pasmem, até a Fiorentina. De repente, o mundo mudou. Chegou a haver pequena briga entre Napoli e Juventus, ponto a ponto, rodada a rodada, até que, também de repente, a diferença se abriu, a Juventus conquistou seu título número nem sei quantos e o Napoli, equipe consistente, com o artilheiro do campeonato – Higuaín, com quase o dobro de gols do vice artilheiro, o Bacca -, se vê ameaçado de perder o segundo lugar para a Roma. De todos modos, a briga ainda é boa.

Portugal não é bem a liga mais atraente da Europa, porém, dois dos seus três principais times costumam fazer graça pela Champion’s e Euro League. Esse ano, o Sporting chegou a ameaçar os dois gigantes – o Porto ficou mesmo para trás e sai com o terceiro lugar -, mas, por algum descuido, o Benfica pegou a ponta, e apesar da diferença de apenas dois pontos, fica difícil imaginar que os encarnados percam alguma das duas últimas partidas, justamente contra duas equipes na Ilha da Madeira, Marítimo e Nacional. O Sporting, há tantos anos deixado de lado, chamou atenção na temporada, treinado pelo ex-benfiquista Jorge Jesus. Se faltava alguém a prova de que Jesus faz milagres, aí está. Por mais que, convenhamos, o eficiente treinador já deva estar cheio da mesma piada.

A Alemanha não peca em organização. E conseguiu, numa espécie de socialismo atrasado, satisfazer a praticamente todos. Como a final da Copa da Alemanha será entre campeão e vice da Bundesliga, deu-se mais uma vaga para competições europeias, de modo que 7 (!) dos 18 clubes do campeonato terão uma aventura pela Europa, na temporada que vem. Além disso, o Bayern, a um ponto do título, com duas rodadas para o fim, se consagrará o primeiro clube a conquistar quatro títulos seguidos do campeonato alemão, enquanto o Borussia Dortmund bateu o record de pontos de um segundo colocado. Isso já é um título.

A Inglaterra vive uma situação curiosa. Quer dizer, mais de uma, a começar pelas duas equipes que disputavam o título: o azarão de todos os séculos, o Leicester City, e o Tottenham Hotspur. Esse, além da chance de título, que escapou de vez num empate em 2×2 contra o Chelsea, precisa ficar atento, pois ainda pode perder o vice. Por sua vez, o milionário Chelsea quase não aparece na primeira metade da tabela, enquanto os dois de Manchester se estapeiam por uma vaga na prévia da Champion’s League. O curioso, para seguir a emoção, é que podem até mesmo acabar sem Euro League, caso o West Ham se engrace demais. Não menos curiosa é a situação do Arsenal, atual terceiro colocado. Pode ser vice, pode cair para a prévia da Champion’s, pode cair para a Europa League. Pode até mesmo não conseguir nada disso e ficar em sexto.

A Espanha viveu um ano inverso ao da Itália. Quando o Real Madrid venceu o Barcelona, no Camp Nou, na rodada não sei qual do segundo turno, aquilo parecia apenas mais uma marca para a história, porque a vantagem de pontos era grande demais para se sonhar com alguma coisa, por mais que o discurso do treinador Zidane fosse do “ainda estamos na briga”. Depois disso, o Barcelona conseguiu perder mais dois jogos, formando uma espantosa sequência negativa de um empate e três derrotas. Atlético de Madrid e Real chegaram, e se não fosse as três vitórias do time catalão, nas últimas três rodadas, a temporada teria sido a mais catastrófica do milênio, após a eliminação nas quarta de final da Champion’s League, para o próprio Atlético de Madrid. Dessas três vitórias, duas foram para mostrar que brincadeira tem hora: 8×0 mo La Coruña, na Galícia, e 6×0 no Sporting Gijón. Nas duas últimas rodadas, o Barça tem o clássico contra o Espanyol e uma partida aparentemente fácil, na Andaluzia, contra o Granada. Se nada mudar na tabela, o Barcelona sairá feliz com o título, mas a equipe que deixará lembranças é a de Simeone, atual segunda colocada, com a mesma pontuação do líder, perdendo, claro, no saldo de gols. Afinal, se o Colchonero tem a melhor defesa, com apenas 16 gols sofridos, o Barcelona tem o segundo melhor ataque, com 104 (!) gols, um a menos que o Real Madrid.

No Brasil, o campeonato nacional ainda não começou. O vice, porém, já fez sua gracinha. E sem graça.

3 de 3: em constante duelo sábado, fev 20 2016 

Na quarta-feira, vendo aquela migalha de gente, pouco antes de São José x Sampaio Correa, perguntei a um funcionário do estádio se domingo daria bom público. “Casa cheia”. Bateu a preocupação de não conseguir ingresso e a certeza de que clássico é clássico e vice-versa.

Nas primeiras horas da manhã de sexta-feira, quando as vendas antecipadas começavam, a moça de São Luís me levou de carro até o Nhozinho Santos, acanhado estádio perto do centro antigo da cidade, para que garantíssemos os nossos ingressos, além de comprar para a irmã e o irmão dela. Não foi difícil estacionar, porque a cidade ainda mantém uma regra flexível, bem simples, de rotação de flanelinhas e anulação automática das placas de proibição. Tampouco foi difícil comprar ingresso, pois não havia fila.

O sábado passou como tinha que passar, e domingo foi a expectativa. Para quem não mora em São Luís, não é todo dia que se tem a chance de um Moto Club x Sampaio Correa. Os clássicos foram inventados para isso, para mover as multidões, para causar a sensação de que ali pode ser o fim do mundo, o fim do clube, o fim de si próprio. Certo que a humanidade já entendeu que não se trata de nada disso, e o clássico, dentro ou fora do futebol, é apenas uma experiência que preenche o tempo.

(O cronista já foi acusado de se achar mais do que realmente é. Não sei bem o que seja isso, mas, em tempo de clássicos sem transcendência, entende-se que a expressão da alegria seja confundida com expressão do autoconvencimento. Já não basta ser espectador.)

Como o irmão da moça de São Luís não chegou a tempo do interior do estado, fomos então apenas eu, ela e a irmã, com o coração dividido entre a festa e o Moto. Estacionamos perto do estádio, garantimos um papel da flanelinha, que nos taxava cinco reais por parar ali, com a garantia de que nada estava garantido. Do Castelinho, ouvia-se uma música, o que empolgou de vez a irmã da moça, que por pouco não largou o Moto de lado. Na curta caminhada até a entrada do Castelão, passamos por um pequeno tumulto, policiais de moto atrás da organizada do Sampaio, parece que teriam dado os catiripapos em alguém. Clássico ainda é clássico.

(No dia em que fui pela primeira vez à Ressacada, estádio do Avaí, em Florianópolis, minha tia, quem me dera carona, disse: “deve ser mesmo uma emoção muito grande para você, entrar num estádio novo”. Desde então, ouço essa frase sempre que algo semelhante ocorre. E o mesmo vale para os clássicos.)

Casa cheia, para quem tem média de mil e poucos torcedores, não é propriamente um estádio lotado. O curioso é que o fenômeno deixado pelas novas arenas de Copa do Mundo, em que atrás dos gols há bom público e no meio, quase ninguém, em São Luís se mantém invertido. A área destinada à torcida organizada – atrás do gol seja no Rio, em São Paulo, Barcelona, Stuttgart ou São Luís – é praticamente ocupada apenas pelos pouquíssimos membros, enquanto o grosso do público se espalha pelos demais setores. No total, não éramos 11 mil para o superclássico maranhense – conforme anunciava o telão do estádio -, num domingo de sol.

Edgar marcou, aos 40 e tantos do primeiro tempo, o que viria a ser o único gol da partida. O domínio do Sampaio, com um Valderrama impecável, se manteve por boa parte do jogo, exceção feita a isolados lances do Moto Clube. A trave esteve presente, como versa a máxima para um bom clássico. Os maiores sustos para a Minha Bolívia Querida vinham nas bolas paradas, quando o zagueiro Hismael, o David Luiz do Maranhão, subia para o ataque, com seus quase dois metros. Faltou entender o que eram aquelas duas faixas carregadas por cada equipe ao entrar em campo: “Só Jesus salva”.

(Não se nega a alegria de um clássico. Aquele River Plate 3×1 Boca Juniors, em 2006, dois gols do Higuaín. Benfica 2×0 Sporting, 2010. Os inúmeros Fla x Flus, o Flamengo x Vasco do Bruno salvando o gol mil do Romário, numa defesa com o pé, o Vasco 4×4 Botafogo, o Banfield 1×2 Lanús, Figueirense 2×3 Avaí, na única visita minha ao Scarpelli. E outros por aí, como esse Moto Club 0x1 Sampaio Correa)

Aos sons da torcida do Sampaio, um motense foi, sozinho, gritando que “com esse time podem esquecer a Série A”. O céu é o limite comum.

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